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A última estação


Dez anos passados, Mariana reabre o gavetão da secretária, que, outrora, fora o local privilegiado de trabalho e reflexão.

Sabe que lá dentro, guardadas em páginas soltas e pequenas agendas amarelecidas, estão também memórias de sentimentos há muito sufocados, mas nunca esquecidos.

Pelas janelas da sala não entra ar nem a luz do dia.

Dias, agora semelhantes em monotonia, uns após os outros, da angústia, do calendário.

(…)

Paraste de escrever, pois claro!

Vivias da sua luz. Sem ele não vales nada!

Olha bem para ti!”, dizia.

Na sombra, não vales nada! Já não és nada!

Não dizes nada? Não respondes?

Pois é, não vales nada!”

(…)

Mariana pára de folhear e volta a fechar a gaveta, com um gesto enérgico. A custo, a madeira antiga, inchada, ferida, emperrada pelo tempo de clausura, obedece-lhe.

Mariana sente-se presa, agarrada a um passado viciado em arrepios, calafrios e dor.

Imagens e sons, aliterações, que no seu interior se ampliam e gritam, dia e noite. Sobretudo à noite... a casa já não encerra em si, os seus sinais...

Dos muros escorrendo, seiva putrefacta sangra, num contínuo bailado descendente...


Mariana sente, que sabe, agora, porque ficou só.


Durante anos, Mariana sentiu que nada poderia fazer.

Era como estar a ver-se, através dos vidros de um enorme aquário, onde a sua existência decorria, sem que alterar esse desígnio, fosse sequer uma possibilidade.

Calafrios gelados percorriam o seu corpo.

Queria poder tocar as finas paredes, mas os seus braços permaneciam estáticos.

As mãos não alcançavam os fios dourados, tecedura urdida em tempos ancestrais...


No écran, Ömer e Elif, após um breve e cândido abraço, separam-se, uma vez mais, no desencontro contínuo em que as suas vidas parecem estar mergulhadas.

Dos seus olhos, amendoados e tristes, lágrimas rolam sobre as faces, como minúsculas pérolas de luz.

Mariana chora, no silêncio da madrugada, a dor dos jovens amantes.

As palavras do poeta, na voz de Ömer, “não é o amor que vence o tempo. É a paixão”, ecoam na noite...


Durante anos Mariana acreditara que tudo estava escrito:

amor, paixão e êxtase, melancolia, saudade e dor...mas nada fora dito.

As palavras não pronunciadas, não ecoavam na solidão das noites sem tempo.


Mariana sente que foi o seu amor que se perdeu...


Sabes, Mariana, nos últimos tempos, viver, contigo dentro de mim, tornou-se um fardo demasiado pesado.

Já não és mais essa mulher frágil e resignada, de olhar doce, que viu o tempo passar.

Os sentimentos a esvaírem-se, como areia fina por entre os dedos.

Já nada será possível.

Foste desfalecendo, noite após noite, na minha memória de ti.


Se vivermos no passado, perdemos o presente”, dissera Elif.

Aonde quer que formos, estaremos sempre presos nos nossos corpos” e sabes que não é o amor que vence o tempo, é a paixão.


Mas só o amor nos liberta. Sabes, Mariana?

Nem sempre é possível resgatar as almas atormentadas.

O sofrimento afastou-nos para sempre.

Tinhas demasiado amor, demasiado tempo, dentro de mim.

Eras uma alma de luz num coração ateu.


O areal deserto queima-me os pés.

No azul negro do céu, as estrelas brilham ainda.

Avanço lentamente.

A água está gelada, esta noite.


Mariana, sentes, morreste para mim ...





Maria André, 2020



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