Biz - Nós
Por Engin Akyürek
Publicado na revista Kafasına Göre, nº 31, Março / Abril 2020
Tradução de Maria José Couto
da versão em francês de enginakyurekfrance.fr
copyright © Engin Akyürek
Tínhamos as nossas próprias frases. Eram frases que não começavam por ”Tu” nem continuavam com “Eu “. Eram frases que eram “ Nós “. Agora o “ Nós “ faz-me mais falta do que o “ Tu “.
Escrevi uma frase numa folha branca. Poderia ser a primeira frase de uma história, eu não sabia se seria capaz de escrever uma introdução melhor. Estas frases eram o resultado de longos olhares entre o papel branco e eu.
A distância entre a cadeira e a mesa e a minha postura incorrecta , provocaram-me dores nas costas. De facto, o efeito desta cadeira de madeira no meu corpo inspirou-me frases sobre uma relação que acabou. Eu sabia que não podia começar a minha história com esse tipo de frases antes de me poder sentar a uma boa mesa, numa poltrona confortável, com uma boa chávena de chá. Uma ligeira dor no fundo das costas pode mudar a cor e o padrão de todas as frases. É como se o lado sombrio e desagradável da vida passasse por cima das nossas cabeças, quando temos dores de dentes.
Quem sabe se todos os textos pessimistas foram escritos por causa das dores de dentes e das fortes dores nas costas dos seus autores...
O vento que tinha entrado através da moldura da janela acariciando o meu rosto tinha alterado o modo de me sentar, e corrigido o “alto” que se formara entre o meu pescoço e os meus ombros. Tinha encontrado uma posição melhor.
Uma ligeira brisa que soprava como um murmúrio tinha atenuado a dor. De repente, tudo parecia mais fácil. Sem esse sopro que se tinha espalhado pela sala através da janela, ainda estaria sentado na mesma posição suportando a dor.
O que nos resta quando perdemos alguém? O seu belo sorriso, os momentos maravilhosos que passámos com ela e os únicos sentimentos que lhe eram queridos... Eu queria pelo menos sentir isso e lembrar-me dela.
Quando as dores nas costas se atenuaram, o tom das minhas frases mudou. Fiz chá e encurtei a distância entre mim e o papel branco.
Tenho uma particularidade, geralmente não me lembro das coisas que não me convêm. Depois de ter terminado uma relação, prefiro esquecer as más recordações que se transformam em frases na minha mente.
Fiz o mesmo quando partiste. Fui à varanda, inspirei fundo olhando o céu estrelado. Quando fechei os olhos, soltei a respiração, e quando os abri, já só vi os últimos instantes da passagem de uma estrela cadente, que se perdeu no céu. Olhar o céu numa noite estrelada, é como olhar o passado. Talvez que essa estrela tenha levado tudo o que nos pertencia e o tivesse transportado para uma outra época. Uma das minhas outras características é que só interpreto o que me convém...
Bebi um gole de chá e sorri como se a estrela cadente me tivesse trespassado. Mudei imediatamente a t-shirt usada e o meu agasalho negligente, para não afectar a minha escrita e vesti as roupas apropriadas ao significado e importância do texto.
A fronteira entre as recordações e a imaginação é ténue. É suficiente reunir boas recordações, as frases que antigamente só pertenciam a “ nós “, no momento em que as recordações mudam de forma e com o poder da imaginação, elas encontram-se; tornam-se mais significativas do que a realidade.
Uma noite em que observávamos as estrelas, o céu tornou-se silencioso e as estrelas foram testemunha da nossa conversa. Como nos rimos ... o som do nosso riso era ensurdecedor. Até as gaivotas deixaram de bater as asas para não apagarem a nossa felicidade. Depois de teres visto a estrela cadente, mostraste as covinhas do teu rosto. Vivi tantas vezes aquela noite nas minhas fantasias, que agora duvido que tivesse havido estrelas e gaivotas nessa noite.
De facto, não havia verdadeiramente nem tu nem eu...Nós éramos dois.
O meu chá tinha acabado, e enquanto eu estava com preguiça de ir buscar mais à cozinha, deixei a frase que tinha chegado à ponta do lápis.
“ Amas-me? “
Sempre que me fazias essa pergunta, eu olhava o teu sorriso, e beijava as tuas “ covinhas ”. Como se procurasse e encontrasse lá a minha frase escondida.
Fiz a mesma pergunta.
“ Amas-me? “
E tu olhaste-me nos olhos e sentaste-te tranquilamente a contemplar-me. De facto, nós utilizávamos esta pergunta como um jogo para nos descobrirmos. Porque após termos feito a pergunta, calávamo-nos por um momento, em silêncio. Eu poderia ter descoberto as sardas escondidas entre as tuas sobrancelhas ou a mancha no lábio superior que eu não tinha notado antes.
Com a chávena de chá vazia na mão, entrei na cozinha, a passos largos, enchi a chávena com chá forte, enquanto regressava à sala, a minha mente estava na frase que ia escrever...
Quando estava ao teu lado, não acreditava verdadeiramente nas tontices que dizias sempre a propósito de “ viver o momento presente ”. parecia-me que essa era uma das expressões da vida moderna exagerada, inventada e idealizada. Na verdade eu queria viver ao teu lado, queria estar ao mesmo tempo no passado, no presente e no futuro. É a mesma vida num tempo tridimensional que fez de nós o “ Nós “. Se não pudéssemos olhar para o futuro nem pudéssemos trazer as experiências do passado, o presente poderia perder o seu significado.
A lembrança do dia em que nos separámos, do dia em que nos encontrámos,
fazia mais sentido.
Tu eras a mulher misteriosa por trás das mensagens que encheram a minha caixa de correio.
“ Li com prazer o que escreveste...Sinto-me como uma das mulheres das tuas histórias, espero que tenhamos ocasião de tomar um café um dia...”
Dezenas destas mensagens, enviadas uma após a outra ocuparam demasiado espaço na minha caixa de correio. Foi como se as minhas respostas educadas às tuas mensagens, as tivessem encorajado ainda mais. A partir das minhas histórias, encontraste significados que a minha mente não tinha previsto.
Não me tinham sequer passado pela cabeça. Se disser que não gostei, seria mentira, talvez a escrita seja qualquer coisa assim, pode ser diferente daquilo que imaginamos, daquilo que os outros imaginam. Não sabia se era uma das mulheres das histórias que escrevo, mas se o seu convite para tomar café se mantinha, porque não?
Quem era esta mulher que tinha encontrado novos conceitos na minha escrita e emoções que eu não tinha sentido? Era impossível começar uma nova história sem o saber, sem satisfazer a minha curiosidade...
Era como se eu fosse preencher aquele vazio que sempre senti em mim, com o seu mundo. Era apenas uma intuição, claro...
Começava a escurecer, o sol adormecia e a cadeira de madeira começara a torturar-me novamente. A luz filtrada através das persianas dava um tom ligeiramente lúgubre à minha folha branca. A mesma preguiça que me impediu de levantar e baixar a persiana não me deixou acender a luz. Havia uma frase esmagada entre os meus dedos e o meu lápis, sem que a pudesse corrigir, não me conseguia levantar da cadeira em madeira onde estava sentado.
Encontrámo-nos num café, num dia de chuva. Através do que escrevias, podia ter uma ideia da tua alma, mas não podia imaginar os teus cabelos, os teus olhos e a tua pele. Fui ao café antes da hora do nosso encontro. Enquanto esperava por ti, tentava encontrar-te entre os rostos que entravam. Apesar de não ter ideia da tua aparência, sentia que os teus cabelos, os teus olhos e os teus lábios eram como eu pensava. Supus que eras como deverias ser. A porta abriu-se, ao som de sinos e das franjas da cortina, e tu entraste. Eu tinha olhado de relance o relógio antes da tua entrada. Tu chegaste com quatro minutos e vinte e cinco segundos de atraso. Eu chegara vinte e cinco minutos e quarenta segundos antes. Nos encontros seguintes, tu chegavas sempre cedo e eu sempre atrasado. Como se nos conhecêssemos há anos, olhámo-nos, estendemos a mão e dissemos ao mesmo tempo:
“ Olá ...”
Sem precisar de silêncio, tivemos um belo encontro numa atmosfera que iluminámos com os nossos olhos.
Sem colocar um ponto entre as minhas frases, tu tinhas tomado a palavra e conduzido a conversa numa outra direcção. O momento que vivemos foi como se uma grande orquestra tocasse a mesma composição sem partitura... foi a primeira etapa para o nosso “ Nós “...
Um pôr-do-sol avermelhado filtrado através da persiana tinha deixado a sala numa profunda obscuridade. Não sabia como ligar o final da história. Tinha começado a escrever como uma história de separação, mas dar a volta à situação estava nas minhas mãos. Acabou por ser um novo livro branco, tudo o que tinha sido escrito poderia torná-la numa relação que continua.
Enquanto aquecia chá frio sobre os meus lábios, recebi uma mensagem no meu telefone:
“ Bom dia
(smile) Hoje, deveríamos encontrar-nos, vim ao café, mas não o vi. Espero que não tenha tido nenhum problema...”
Deixando o telefone de lado, rasguei a história que estava sobre a mesa e que começava por “ Nós “, e atirei-a para o caixote do lixo. Para chegar a tempo ao café, mudei imediatamente de roupa. Aparentemente, eu cheguei com vinte e cinco minutos e quarenta segundos de atraso...
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