Avançar para o conteúdo principal

 

Karşılaşmalar “ - “ Encontros “

Autor - Engin Akyürek

publicado na revista Kafasına Göre, edição nº 35, Nov / Dez 2020

            • traduzido do turco por Legión Akyürek Perú e Engin Akyürek Uruguay

            • traduzido do espanhol por Maria José Couto

                                                       copyright © Engin Akyürek

De cada vez que um ponto de interrogação aparecia na minha cabeça, escapavam pelas fendas do meu coração até à minha língua frases que não conseguia decifrar, ficava em silêncio, e os meus ouvidos tentavam escutar a dor. Então imediatamente saía para a rua para tentar encontrar respostas às minhas perguntas entre a multidão. As vozes humanas que enchem as ruas e transbordam as avenidas, as conversas entre amigos à volta de uma mesa e os rostos desconhecidos que tentam atravessar a rua no sinal verde, sempre me foram agradáveis. De cada vez que saía para a rua com esta intenção, cruzava-me com um homem desconhecido, sentia-o como um sinal e começava a questionar as respostas que tinha encontrado.


Comecei a cruzar-me regularmente com este homem cujo cabelo branco denotava a sua idade, uns cinquenta anos, de estatura média e com óculos de armação grossa, em diferentes lugares e avenidas, ao longo de três anos. O seu olhar como se estivesse a ver através de uma garrafa de água e a sua figura ligeiramente encurvada criavam uma imagem que reconhecerias onde quer que a visses. Se fôssemos fisicamente parecidos, poderia fazer interpretações metafísicas e pensar que era a projecção do meu futuro.


No final do primeiro ano comecei a familiarizar-me com a situação, no segundo ano enumerava mentalmente as coincidências e no início do terceiro ano comecei a preocupar-me com as interpretações. Se tivesse a minha idade minimizaria a sensação de ser perseguido e numa linguagem educada iria confrontá-lo e interrogá-lo demoradamente. Porque seria que cada vez que me sentia assim, e tinha que tomar uma decisão sobre um problema, me cruzava com este homem? Haveria um sinal na sua presença que eu não tivesse entendido, algo que não tivesse lido correctamente?


Não me parece que me tenha visto. Estava a jogar um jogo que só tinha sentido para mim com um homem do qual nem sequer sabia o nome...Inclusivamente se me sentava no lugar mais movimentado de um café, ele vinha, sentava-se em frente à minha mesa, lia o seu jornal, escrevia coisas numa pequena agenda que tirava da sua bolsa, e nem sequer se dava ao trabalho de me observar pelo canto do olho, apesar de já nos termos cruzado várias vezes. Não levantava a cabeça da mesa, do jornal que lia, nem das notas que escrevia para que no momento de um pequeno contacto visual o pudesse saudar, iniciar uma conversa e esclarecer as vezes em que nos tínhamos cruzado. Não importa quem somos ou de onde vimos, todos temos uma história. Quem fomos, o nosso caminho, a nossa aparência e o mais importante, essa profundidade a que chamamos interior e que alimentamos sem saber bem o que é, é o que determina como devem ser as nossas histórias. Pergunto-me qual será a história deste homem cujo nome desconheço.


Estava à espera no sinal vermelho, seguindo os “flashes” da luz verde. A minha disposição era de querer deixar escapar o meu aborrecimento entre a multidão. Já sabes, tudo se acumula, novos problemas aparecem aqui e ali, sentes uma dor na alma como se te cortassem a carne...Não nos cruzámos durante dois meses. Onde estará este homem? Bastou pensar nisto. Com o acender do sinal verde, vinha na minha direcção como se o tivessem acabado de colocar ali, caminhando lentamente, ao contrário da multidão. Como sempre passara por mim sem me ver. Reparei que trazia a mesma roupa de sempre, e que a seriedade do seu rosto era como que um disfarce. O cinzento e as suas tonalidades, não eram as cores da sua camisa, eram as cores do seu rosto. Porque é que não me cruzava com ele quando estivesse a rir -me às gargalhadas? Era como se dentro de mim houvesse um botão que o chamasse, e em caso de emergência inconscientemente pressionasse esse botão.


Tinha atravessado a avenida. Como se fosse parte do seu corpo, levava oscilando o seu saco de couro, caminhando devagar afastava-se de mim. Nesse instante eu também atravessei a avenida e comecei a segui-lo, tinha querido fazê-lo antes, mas não me tinha atrevido. Ao segui-lo talvez isso o fizesse reparar em mim, contava-lhe uma história de coincidências e o pequeno jogo que estava a jogar dentro de mim terminaria. Não importa onde encontramos estas intenções, deixei os meus assuntos de lado e segui-o, observei-o de longe até que entrou em casa. Estava casado, era pai de dois filhos e tinha uma vida humilde. Não pude captar nenhum pormenor que fizesse referência às emoções que deambulavam dentro de mim, à minha vida, apenas estava a ver algo comum. Tinha uma filha de quinze anos e um filho quase com vinte. Passava o domingo com eles, rosto sério ao lado da família. Parece feliz com a esposa, geralmente conversam quando vão jantar fora às sextas-feiras. Era como se todas as características das pessoas que não gostam de falar, que não querem gastar as suas frases facilmente e que guardam os seus sentimentos num bolso do coração, estivessem reunidas neste homem. Programava as suas actividades dia a dia, e não as alterava, às sextas com a esposa, aos domingos tomava um café com os filhos e os sábados passava-os em casa. Não consegui saber qual era o seu problema, a sua profissão, que trabalho fazia, porque passeava pelas ruas todo o dia. Era a história de um pai orgulhoso que fora despedido do trabalho e não podia dizer à família, ou era a história de um homem simples que se tinha reformado e apreciava as ruas? Começava a completar na minha cabeça esta vida que observava de longe, estava a escrever a sua história comum numa gradação de cinzentos.

Levantei-me de manhã cedo e rapidamente saí para a rua para evitar o tráfego em hora de ponta. Estava de bom humor. Estava cheio de um milhão de bolhas. Atravessava as ruas como se fosse um balão de ar quente, deslizando até à paragem do autocarro. Não sabia porque estava tão feliz, parecia que as bolhas dentro de mim levavam a minha alma e o meu corpo até às nuvens. Esperava na paragem do autocarro mas uma das minhas mãos estava nas nuvens e a outra na lua que estava quase a desaparecer com a luz do dia. Uma mão tocou no meu ombro, como se o sol entre as nuvens batesse nas minhas costas. Quando me voltei lentamente, o homem cujo nome não sabia e que tinha seguido durante meses estava a olhar para mim. O ar sério tingido de cinzento do seu rosto desaparecera e um sorriso banhado de sol tinha aparecido. Surpresa, ansiedade, experimentei muitos sentimentos ao mesmo tempo. Não sabia qual a emoção que devia manter enquanto esboçava um grande sorriso sem mostrar os dentes. Pergunto-me se isto seria porque se deu conta de que o tinha seguido... Deu mais um passo balançando o saco ao ombro:


Olá... ”

O calor da voz deste homem que era todo cinzento parecia um arco-íris. A expressão dos seus olhos não parecia querer explicações. Eu também alarguei um pouco o meu sorriso:

Olá. “

Era a primeira vez que me sentia feliz e me cruzava com ele, inclusive até me tinha dito “ olá “!

Desculpe, estou a incomodá-lo mas durante muito tempo não sabia se lhe deveria dar ou não. “

Não entendo. “

Escrevo histórias à minha maneira, envio-as para uma revista. Às vezes consigo que a minha esposa e os meus filhos as leiam... “

Hmmm... "

Gostava que lesse uma história que escrevi. “


Tirou do seu saco de couro um documento fotocopiado e entregou-mo. Não pude perguntar porquê.

Não fui trabalhar, sentei-me num banco vazio que encontrei e comecei a ler o documento que me tinha dado.


Encontros

Sempre que estou feliz, vou para as ruas e caminho devagar até que os meus pés me digam que páre. Durante três anos tenho-me cruzado com um homem jovem nestas ruas que adoro. Não me apercebi que tivesse reparado em mim, ou que me olhasse pelo canto do olho. Estou numa altura em que começo a sentir felicidade, reinventando a vida. Era como se o olhar deste jovem me estivesse a dizer algo. Ao fim de três anos dos nossos encontros, comecei a dar sentido a estes encontros...        

Enquanto estava à espera no sinal vermelho vi que estava no passeio em frente, nesse momento decidi segui-lo... "




Comentários

Mensagens populares deste blogue

  1ª sessão numa sala de cinema após o desconfinamento! 16/05/2021 “ In the Mood for Love”, 2000 Wong Kar-Wai Vinte anos depois de o ter visto pela primeira vez numa sala de cinema, volto a usufruir dessa experiência avassaladora que é “In the Mood for Love”, no grande écran. Um filme sobre o amor, encontros, desencontros e impossibilidades. Uma banda sonora melancólica, uma paleta de cores sublime, nostálgica, sombria, impactante, emocionante, on the mood... e inundado de “slow-motions” e de enquadramentos dentro dos enquadramentos... Um filme que nos transporta para um tempo e um lugar que já não existem: “ O passado era algo que ele podia ver mas não podia tocar,(...) turvo e indistinto.” Um filme escrito, realizado e produzido por Wong Kar-Wai. Texto escrito em Maio 2021

"A ESTA HORA EM ISTAMBUL", Maria André, Abril 2024

"A Esta Hora Em Istambul " reune poemas escritos entre Janeiro de 2020 e Setembro de 2023. São 64 poemas, 24 dos quais também com uma versão em turco.

Sana Bir Mektup Yazdım

 Escrevi-te uma carta  Na minha cabeça estão todas as palavras Escrevi-te uma carta Assim como quem te vê vir ao longe Escrevi-te uma carta Digo-te que te toco o coração Escrevi-te uma carta No parque junto à costa Escrevi-te uma carta Na penumbra ao entardecer Escrevi-te uma carta Digo-te que te sinto a alma Escrevi-te uma carta Na minha cabeça estão todas as palavras 15/03/2026