Turuncu kedi - o gato cor-de-laranja
Na minha infância os gatos não frequentavam a casa. Permaneciam no quintal ou no terraço. Tinham permissão para entrar na cozinha e mais tarde, na minha adolescência, a Abril, vinda do terraço, era livre de circular entre a cozinha e a “ sala de estudo “, onde fazíamos os deveres e onde passávamos a maior parte do tempo livre.
Passava horas a ler, sentada no sofá e a Abril ao meu colo, ronronava sestas intermináveis. Como gata siamesa que era, espírito livre e pouco dada a manifestações sentimentais, como oriental que era, a nossa relação era mais de silêncios do que verbal.
Quando foi tomada a decisão de a entregar a uma família que a pudesse cuidar durante todo o ano, incluindo as “ férias grandes “, quando nos ausentávamos, por vezes por períodos de um mês, sem que a pudéssemos levar connosco, e se encarregasse de “encaminhar “ as suas crias, que nasciam invariavelmente todos os anos, a minha alma gelou.
Tomei a decisão de nunca mais voltar a ter uma ligação afectiva daquela natureza.
Já antes, na minha infância, tinha sofrido um choque semelhante, aquando da partida do “ Patinhas “ para a aldeia, para casa dos meus avós maternos. Choque mais brutal ainda, atendendo a que teria na altura, 5 ou 6 anos apenas.
Patinhas tinha sido o meu primeiro gato, gato comum europeu, todo negro, com as quatro patas completamente brancas. Patinhas, igualmente um espírito livre, passeava pela cozinha, arranhava tudo e todos os que se tentassem aproximar. Eu corria atrás dele, com as marcas visíveis dessa paixão, nas minhas mãos permanentemente arranhadas.
“ É um gato do campo, não pode viver fechado num apartamento, na cidade.”- dizia o meu avô. E com razão. Patinhas, na casa da aldeia, passava temporadas fora, só vinha a casa para comer eventualmente. Aparecia no dia da nossa chegada, demorava-se um pouco, cumprimentava, roçando-se demoradamente nas minhas pernas e saía de casa. Era completamente livre.
Mais recentemente, há cerca de 7 anos, conheci a Estrela. Cuidei dela algumas vezes, durante ausências mais prolongadas dos seus donos. A minha empatia natural e antiga com os gatos, ligou-me imediatamente à Estrela.
Quando a Estrelinha partiu, recentemente, o meu coração quebrou e sangrou dias a fio.
Caju, o gato cor-de-laranja chegou para fazer companhia a Goes, o gato de olhos verdes, triste e solitário, após a partida da Estrelinha.
Quando o conheci, frágil cria com 2 meses de vida apenas, a empatia foi imediata. Muito colo, muitas festas, muito ronronar. Caju dormiu em cima da minha cama, logo na primeira noite. Na segunda noite, acordei de madrugada com uma sensação de bem- estar emocional incrível. O que me tinha acordado fora o sentir junto às minhas costas o calor do corpo de Caju, que durante a noite se tinha enfiado debaixo do edredon, e dormia agora junto a mim.
Nesse momento senti que não podia continuar a cumprir a minha promessa antiga.
Turuncu Kedi, o gato cor-de-laranja, estava já no meu coração.
Matosinhos, 19 de Novembro 2020

Comentários
Enviar um comentário