Donelo do Douro
Após a agonia das curvas do Marão, em que o meu estômago se colava à minha boca e o meu rosto pálido embranquecia, a chegada à aldeia, a casa dos meus avós, era vivida com um misto de alívio e felicidade.
Os aromas da fruta fresca espalhada em tabuleiros por sobre os aparadores da sala de jantar, o pão de centeio e a broa de milho que nos esperavam na mesa da cozinha, ao pequeno-almoço.
As escapadelas furtivas à “ Cortinha “em frente a casa, onde havia um poço, que não sabíamos nunca muito bem onde, devido às silvas e ervas altas que o escondiam. E todos os verões parecia ser um local diferente que perigosamente nos espreitava, nesses passeios exploratórios.
À tarde, após a sesta ritual, descascávamos vagens de feijão seco, sentadas no chão do terraço. Separá-los por cores e matizes era para mim um divertimento adicional. Isto, enquanto esperávamos, ansiosamente, pela vinda da aguadeira.
As idas à fonte com “ a rapariga “, a aguadeira que invariavelmente aparecia ao portão, ao final da tarde, com a rodilha feita de trapos coloridos, à cabeça, para melhor suportar e equilibrar o peso dos cântaros, ao regressar da fonte. A avó, autoridade suprema nas férias, na ausência dos pais, estabelecera que à fonte, localizada num dos extremos da aldeia, junto a um valado íngreme, as meninas só poderiam ir acompanhadas da rapariga e não poderiam encher os cântaros; era perigoso.
À “Balsada “localizada a alguns quilómetros, parecia-me na altura, nunca soube quantos na verdade, só podíamos ir com o avô. Claro que nunca nos atreveríamos a ir sós, apesar de o percurso ao longo do tempo já ter sido interiorizado. Era com o avô que a experiência se repetia, todos os anos, com a mesma magia e surpresa.
Quando a pesada chave de ferro abria a porta no muro de xisto negro que ladeava a propriedade do lado do caminho, abria-se um mundo fantástico de vegetais, flores e frutos. Debaixo de uma ramada, água fresca corria para o enorme tanque e do tanque para os canteiros e a horta. Bebíamos a água gelada directamente da “ fonte “ em enormes folhas de couve, que o avô cortava no momento.
Subir os socalcos para inspeccionar o vinhedo era uma aventura que na altura me parecia digna de façanha de alpinista. “ Vai ser boa a vindima, em Setembro!”, dizia o avô.
A ida à “ Veiga “ era toda uma outra história. A distância considerável, os perigos do caminho e a ausência dele, em certos trechos do percurso, obrigavam a todo um outro ritual. O avô falava do assunto com os pais, quando nos visitavam ao fim-de-semana e organizava-se “o passeio “. Manhã muito cedo, era necessário voltar a tempo do almoço, a avó ficava sempre em casa, a supervisionar os preparativos do dito almoço.
O caminho era comum até à “ Balsada “ e a uma outra propriedade, da qual nunca soube o nome, talvez não tivesse, de onde vinham os tremoços e onde havia uma mina que me fascinava, ou então eram as histórias que o avô contava, sobre acontecimentos aí passados.
Depois afastávamo-nos tanto da aldeia que esta já não se poderia entrever nas nossas costas.
Sabíamos que lentamente nos aproximávamos do Douro que lá no fundo do vale corria, mas não o poderíamos ainda avistar.
Quando finalmente chegávamos à “ Veiga “, onde o avô teimosamente continuava a cultivar a vinha que herdara dos seus pais, já sem fôlego nós, meninas da cidade, o sol já ia alto e queimava-nos a pele. O ar que se respirava ali era estranhamente fresco e a vertigem do rio lá abaixo, muito ao longe, chamava-nos à vida.
Isto, todo o verão da minha infância que, sei-o agora, foi feliz.
Dezembro, 2020

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