Há memórias que inventamos com o passar do tempo. Umas para apaziguar feridas ainda abertas, outras para aliviar os sulcos vincados na alma, outras ainda, para selar um compromisso com o que verdadeiramente lembramos do nosso passado.
Em criança sofria de pesadelos recorrentes. Pesados, dolorosos. Encontrava-se encerrada numa enorme cápsula branca, pousada no leito do rio. No sonho, acordava e não podia libertar-se. Não havia porta nem janelas e se houvesse, de nada serviriam, pois sentia que não conseguiria alcançar a superfície.
O que mais a assustava, era a sensação de que dentro do sonho, a sua respiração parecesse cadenciada e límpida. Quase como se se sentisse em casa e o seu lugar tivesse sido sempre esse.
Talvez porque vivera, nessa época, junto ao rio, e à noite, com dificuldade em adormecer, (recorrência em toda a sua vida ), observava pela janela do quarto, as luzes das margens, reflectidas à superfície das águas.
O rio era uma atracção e ao mesmo tempo o abismo!
Não sabia porque se lembrava, nesses dias sombrios, de tantas memórias desse passado, já tão distante.
Algo dentro de si enviava-lhe sinais.
Sentia necessidade de passar para o papel essas impressões, pensamentos que lhe surgiam, repentinamente, numa catadupa de imagens, sons, palavras.
Setembro, 2020
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