Para mim é Sefa... (1)
Olhava para mim com os olhos fixos, de forma impertinente.
O seu descaramento tinha pouco a ver com a minha relação. Quando se comportava de forma insolente, costumava fixar os olhos em mim, fazia pouco de mim e não cumpria com as suas obrigações de gato. Perguntar-se-ão se os gatos têm na realidade alguma obrigação. Eu refiro-me a que os gatos se deixam querer, fingem miar, brincam com as pessoas para lhes provocarem o sentimento de culpa...
Há objectos e frases que resumem as relações. Um gato resumia a nossa...
Lembro perfeitamente o primeiro dia em que o gato chegou a casa, refiro-me ao nosso gato. Como esquecê-lo, era a segunda semana da nossa relação, o dia em que começámos a viver juntos. A minha namorada tinha-se instalado na minha casa com a sua mala, a sua escova de dentes e o gatito que acabara de comprar, como se quisesse acrescentar um pouco de sal à nossa relação. Os namorados costumam fazer este tipo de coisas.
A primeira vez que trocámos olhares na sala, deixou-se querer, foi a primeira e última vez que o fez.
_ Querida, como se chama o gato? Escolhemos o nome juntos?
Era um gato listrado, não havia muitos nomes por onde escolher.
_ Que nome lhe podemos dar? - perguntou-me a minha namorada.
A minha tendência para esperar na hora de tomar decisões voltou a ver a luz do dia.
_ Eu penso que deveríamos esperar para conhecer a sua personalidade, antes de lhe dar um nome. - respondi-lhe.
_ Eu penso que lhe deveríamos chamar Noz.
_ Noz? Mas como é que se pode chamar Noz a um gato?
_ Porque não? Gosto muito do nome Noz.
Um gato tinha chegado a minha casa, tinha-se apropriado do meu sofá e tinha desarrumado todos os meus livros. Quando sugeri à minha namorada escolhermos o nome juntos, lembrei-me de um texto que já tinha o nome do gato pré- definido. Além disso, tenho de reconhecer que não gosto de nozes, fazem-me aftas na boca... Enquanto eu andava às voltas com o nome do gato, acabei a partilhar a vida com ele. Ao descobrir o carácter preguiçoso do gato, dei-me conta de que o nome Noz não encaixava na sua personalidade.
_ Vem cá, Noz.
_ Miau...
Toda a sua existência baseava-se em gastar o mínimo de energia possível, libertar gases e pensar só em si próprio. Seria assim na realidade ou fazia-o só para me aborrecer? No primeiro dia em que chegou a casa pensei que tinha gostado de mim e que ia trazer um pouco de alegria à casa.
_ Querida, deveríamos dar-lhe o nome de Sefa – disse à minha namorada.
_ Como disseste?
_ Que se chame Sefa.
_ Sefa, como? Onde é que já se viu um nome assim para um gato?
Era o nome que melhor se adequava. Além de que, se se podia pôr-lhe o nome de Noz, porque não o de Sefa? Não queria ser como os pais que põem nomes absurdos aos filhos. Sefa era um nome que podia usar com dignidade. A sua alma, a sua cauda e as suas garras eram dignas de se chamar Sefa. Quando o chamava pelo nome Sefa parecia olhar-me, depois girava o corpo raiado e ignorava-me.
A relação com a minha namorada tornava-se cada vez mais complicada, o tempo só piorava as coisas. Sefa era testemunha, era como se os seus olhos azuis olhassem para mim dominadores. Eu parecia um convidado na minha própria casa e o gato, o seu dono. O meu sofá, a minha cama, cada esquina da casa, tudo lhe pertencia. Quando levantava o seu corpo ingrato, logo a seguir apoderava-se de um espaço.
A relação com a minha namorada tinha-se azedado, e parecia-se com o sabor de um chá que se toma já frio.
_ Noz!
_ Sefa!
_ Noz!
_ Sefa!
Também não quero fazê-los perder tempo com as nossas discussões, mas o assunto pouco tinha a ver com Noz ou com Sefa. Estávamos a viver os minutos de desconto de uma relação que terminava. Tínhamos encontrado uma forma de nos magoarmos, Sefa ou Noz era birra que não tinha nenhum sentido.
_ Noz.
_ Sefa.
Costuma dizer-se que todas as relações estão condenadas a terminar, e o mesmo aconteceu com a nossa. A minha namorada recolheu a sua mala e a sua escova de dentes e partiu. Ao fechar-se a porta Sefa soltou um “miau”...
Contactei os amigos e os familiares da minha namorada, ou melhor dito , minha ex-namorada, para virem buscar Sefa. Ela não voltou a dar sinal de vida. O gato olhava para mim com um sorriso debaixo dos bigodes como se me estivesse a provocar.
_ De que te ris?
_ Miau...
O silêncio apoderou-se da casa. Comecei a pensar que eu era um hóspede em casa de Sefa. Estávamos juntos há seis meses, mas a relação com Sefa não era mais do que dar-lhe água e comida.
_ Gostas de mim? - perguntei-lhe.
_ Miau.
_ Está bem, de acordo.
_ Miauuu.
Como lhes estava a dizer, costumava fixar os olhos em mim e olhava-me de forma impertinente. O silêncio de uma relação recém-terminada era quebrado pelo ruído produzido pelas garras de Sefa no soalho. Sefa era como que o resumo da minha relação com a minha ex-namorada. Quando mordiscava os meus livros, lembrava-me das discussões que costumávamos ter, quando lhe dava de comer lembrava-me dos dias felizes que tínhamos passado juntos.
Esperei, esperei durante três meses. Não sei se Sefa esperava por alguém. Nas noites que passei acordado, ele dormia como uma pedra. Quando precisava de desabafar, ele limitava-se a lamber o corpo, quando precisava de falar ele limitava-se a miar. O tempo passou e Sefa cresceu. Tornou-se o proprietário da casa...
Uma noite em que me sentia angustiado, meti o Sefa no carro e deixei-o num bairro onde poderia viver tranquilo. Tinha-o alimentado, ele tinha crescido o suficiente, até lhe tinha dado um nome, que mais poderia fazer por ele...
Apesar de me ter passado pela cabeça dá-lo a um amigo, a proximidade da sua presença iria fazer com que me voltasse a lembrar do passado e dificultaria o meu empenho em esquecer. Era melhor nem sequer saber onde estava.
Na noite em que abandonei Sefa, voltei tarde para casa, tomei um duche para me acalmar, deitei-me e quis começar a minha nova vida dormindo. Na fase mais profunda do sono, algo me despertou. Era como se me sussurrassem alguma coisa ao ouvido. Vesti-me rapidamente e saí de casa. O sussurro no ouvido era da minha própria voz. A voz desceu do ouvido e encontrou-se com novos amigos entre o coração e o estômago. Gritava-me que apesar de parecer o contrário, na realidade eu não gostava de Sefa. E mais ainda, gritava-me e acusava-me de fingir gostar do gato só para agradar à minha namorada. Não sabia quem gritava comigo, nem tão pouco o que pretendia. Não parava de me acusar. Efectivamente era verdade que não gostava de Sefa e tinha fingido gostar. A minha voz interior normalmente acertava no que me dizia. Nunca tinha gostado de Sefa, mas em contrapartida esperava que ele tivesse gostado de mim. Isso parecia-me bastante claro.
Às vezes um gato podia fazer-nos descobrir coisas novas sobre a vida. Cheguei à rua onde tinha abandonado Sefa. Desci do carro e caminhei em direcção ao lugar onde o tinha deixado. Havia a possibilidade de não o voltar a encontrar. Não estava habituado à rua e os cães vadios representavam um grande problema. Ao pensar nisto, a minha consciência deixou de raciocinar e senti-me intranquilo.
Ao chegar ao pé dos contentores do lixo, vi o Sefa. Estava à minha espera com as patas cruzadas, miou como se me perguntasse onde é que me tinha metido. Na expressão do seu rosto, via-se o brilho das pessoas sábias que conhecem os interstícios da vida. O gato sabia que eu voltaria, ele tinha percebido, logo quando nos conhecemos, que eu não gostava dele. Eu, pelo contrário, não me tinha apercebido de nada, tinha deixado o tempo passar de modo inconsciente.
Quando voltei para casa com Sefa, algo tinha mudado entre nós. Tinha-me habituado a ele, agora era algo mais do que um convidado e deixei-o entrar no meu quarto. Havia uma espécie de acordo nos nossos olhares. Gostávamos um do outro, e já não era só aparência. Sefa tornava-se cada vez maior, a sua cauda era já mais larga do que a sua cabeça e caminhava como um felino.
Tinha-me esquecido da minha recém- acabada relação e habituara-me a Sefa. A minha vida era mais colorida, estava em paz comigo próprio e Sefa tinha engordado. Estava à vontade, já não reprimia o seu sorriso como antes. Era como se alguém tivesse clareado a cor das nuvens, dos caminhos e das pessoas. Tudo estava resplandecente. Era a cor pelo esquecimento de um trauma...
Pensem num jantar com amigos, imaginem que tudo está bonito e o teu sorriso ilumina tudo em volta; depois continuem sonhando. Que aconteceria se pensassem na ex-namorada no momento mais agradável? Foi o que me aconteceu; deixei o telefone tocar um par de vezes, mantive o sorriso fazendo acreditar a quem me rodeava que não era uma chamada importante; a seguir afastei-me um pouco da mesa. Pigarreei e não me esqueci de dar um tom distante à minha voz. Quando nos sentimos bem e tudo corre bem na nossa vida, os papéis mudam. Se a tua antiga namorada te liga a estas horas é porque está aborrecida ou porque tem saudades tuas. Na realidade, o meu ego não era assim tão grande, a verdade era diferente. Tinha as mãos a suar, a voz trémula e tinha-me assustado por não saber o que dizer.
_ Olá.
_ Olá, desculpa ligar a estas horas.
_ Não tem problema.
_ Desculpa-me. Sei que não temos falado. Lembrei-me do Noz.
_ …
Não me tinha telefonado durante um ano inteiro e nem sequer me perguntava como estava, lembrou-se de repente do seu gato...
_ Noz continua contigo, não é verdade? Tenho muitas saudades dele. Será que o posso ver?
_ …
_ Olá, estás aí?
Permaneci calado, não consegui articular nenhuma frase.
Só consegui pronunciar uma frase ao desligar o telefone:
_ Para mim é Sefa...
(1) – tranquilidade, prazeres.
Tradução do conto:
"Para mi es Sefa...", in "Silencio", 1ª edição , junho 2020
Engin Akyürek

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