“Para mim também é Sefa”(1)
_ Sefa.
_ Miau...
Estava no lugar mais confortável do sofá e olhava para mim, com uma expressão assustada e sem levantar a cabeça. Tínhamos uma relação especial e em situações como aquela o seu corpo listrado costumava assustar-se. Compreendia o que lhe dizia. O som que reproduzia tinha o mesmo significado em todos os idiomas. Os seus olhos brilhantes olhavam-me, sem levantar a cabeça, não só olhavam para mim como também para o que eu estava prestes a dizer-lhe.
_ Miau...
Antes de pronunciar as palavras e as frases que ia dizer, ensaiei como deveria usar as vírgulas para fazer as pausas.
_ Tenho namorada.
_ Miau...
_ É recente, namoramos há pouco tempo.
Levantou a cabeça, alongou o corpo e olhou para mim como se não se importasse muito com o que lhe dizia.
_ Estamos apaixonados e decidimos começar a viver juntos.
Desta vez nem sequer levantou a cabeça, virou-me as costas e levantou a cauda.
_ Vem viver cá para casa...
O seu ronronar tornou-se mais intenso e meteu a cabeça debaixo do almofadão. Sabia, pelo tremer da sua cauda, que não queria continuar a ouvir-me.
_ Não me ouves?
Ia partilhar o sofá e a mesa de trabalho com outra pessoa, a partir de agora viveria com outra pessoa em casa.
_ E ela também tem um gato...
Sem deixar que terminasse a frase, levantou-se e foi-se embora para a outra sala.
_ Miau...
Uma semana depois, a minha namorada instalou-se em casa com a sua mala e a sua gata Linda. A gata era uma angorá turca de pelo branco e olhos azuis. Pelo seu olhar, pela forma simétrica da sua pelagem e a tranquilidade dos seus olhos azuis, era fácil deduzir que tinha tido uma vida calma. Tinha-se disfarçado de gata doméstica carinhosa e logo a seguir deixou perceber que queria ser a nova princesa da casa. Sefa posicionou-se na parte mais ilustre do sofá. Com a sua postura e calma, queria demonstrar que aquela casa era sua. Permaneceu imóvel. Deixava claro que não era um gato hospitaleiro, não se deu ao trabalho de se levantar do chão ou a abanar a cauda em forma de saudação. Linda parecia ser uma gata inteligente e dócil. Apesar de vir de uma casa maior e com melhores condições, tentava habituar-se à sua nova casa. A grosseria de Sefa fez com que a sua pelagem se tivesse tornado mais rala, mas não perdera um átomo da sua afectação.
Após a segunda mala, a minha namorada trouxe cá para casa também a terceira. A casa ia-se enchendo de malas. Linda deixava o seu rasto nos cantos que mais lhe agradavam, e tornava-se assim na dona da sua nova casa. Ao aumentar o número de malas, reparei nos olhos de Sefa e podia ouvir os palavrões que soltava no seu interior. Só dizia um “miau”, mas sabia, pelo tom, que estava a insultar. O medo fazia com que não me pudesse interessar por Linda, só podia demonstrar o meu carinho às escondidas.
Após o período de adaptação, a vida na casa com dois homens e duas mulheres prosseguia calmamente. Gostava muito da minha namorada, a sua presença em casa e o partilhar da mesma cama, faziam-me muito feliz. As minhas frases cheias de amor e carinho, dirigidas à minha namorada chocavam contra a parede e caiam sobre o corpo de Sefa. Ele traduzia as frases e voltavam aos meus ouvidos em forma de insultos. Se não fosse o mau humor de Sefa, eu sentia-me bem. Tinha uma relação que corria bem e tinha aprendido a não pôr em causa as coisas que corriam bem...
Os pequenos-almoços, as longas conversas após a refeição e as visitas de amigos faziam-nos sentir bem. Mas no momento em que se fazia silêncio em casa, começavam a arder as ervas secas que tinha dentro. Quando não falava nem partilhava nada com a minha namorada, o silêncio era cada vez maior e podia provocar um incêndio capaz de queimar um bosque. Fugi apressado do silêncio e mergulhei no zumbido da multidão. Todos os dias contávamos com um convidado com quem conversar e assim escapar ao silêncio.
Ao chegar ao segundo mês da nossa relação, Sefa zangou-se comigo. Como ele me conhecia melhor do que eu próprio, tinha consciência de que me queria dizer alguma coisa. Quando começaram a vir menos convidados, a minha relação com a minha namorada tornou-se mais azeda. Os gritos interiores gerados pelo silêncio reflectiam-se primeiro nas nossas línguas e a seguir nos olhos. Saber que havia muitas coisas de que falar e partilhar, ampliava ainda mais os nossos silêncios. Quando nós nos calávamos, Sefa e Linda começavam a procurar-se no silêncio. O nível de namoro entre eles foi aumentando e percebiam-se os primeiros sussurros de um grande amor. As conversas amigáveis com a minha namorada não eram remédio contra os conflitos que tínhamos, e os telefones que segurávamos nas mãos eram a nossa única salvação. Sentávamo-nos no mesmo sofá mas tínhamos construído um muro invisível entre nós. Tínham-se aberto fendas nos muros da nossa frágil relação.
Uma granada de mão tinha-se escondido por trás do silêncio; primeiro explodiu no meu coração, depois espalhou-se por todo o corpo e deixou-me um gosto agri-doce na boca. Os golpes no meu coração, sentiu-os a minha namorada na língua, que não parava de pronunciar frases desestruturadas. Na última que pronunciou, decidiu tirar a cavilha que fez explodir a granada:
_ Vou sair de casa...
Pegou na Linda e partiu. As malas que tinham chegado a conta-gotas, desapareceram num abrir e fechar de olhos. A partida de Linda não caiu bem a Sefa, que começou a olhar para mim de forma humilhante.
_ Tu sabes o que é o amor?
_ Claro que sei.
_ Eu creio que não fazes a mínima ideia, e além disso não pensas na minha felicidade.
_ Tu só pensas em ti.
_ Isso é o que tu pensas. Não conheces os gatos.
Sentei-me no lugar mais recatado do sofá para falar comigo mesmo. Tinha perdido a cabeça ou matraqueavam-me a mente os sons que ouvia?
Passaram três meses. A relação azeda que mantinha com Sefa adoçou-se ligeiramente. Pelo menos dizia-me um “bom dia” pelas manhãs. Os dois tínhamos momentos em que estávamos de mau-humor; quase sempre antes de irmos dormir, quando nos atirávamos à cara o cansaço de todo o dia. Quando os olhos de Sefa estavam fechados e o meu enfado estava quase a render-se ao sono, um som proveniente da porta exterior mordeu-me o ouvido. O som por detrás da porta acordou-nos aos dois e dirigimo-nos para ela. Ao abri-la, apareceu a figura de Linda...Tinha fugido de casa, tinha seguido o rasto do cheiro para se reencontrar com o seu amor.
_ Miau...Miau...
Só nós podíamos compreender o que Linda queria dizer.
_ Para mim também é Sefa...
(1) – tranquilidade, prazeres
Tradução do conto:
“Para mí también es Sefa”, de Engin Akyürek
Silencio, 1ª edição junho 2020

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