Silêncio Era um dia de inverno. Parecia que tinham colocado um frigorífico sobre Ancara, soprava um vento gelado. As ruas estavam cobertas por uma neve fina e branca. Os telhados reflectiam a inocência das rendas de um vestido de noiva. Escondi-me dentro da cama para não acordar. Tapei a parte do traseiro que tinha ficado fora do cobertor, e enquanto tentava continuar a dormir, ouviam-se ruídos fora de casa. Era como uma sinfonia frágil e desagradável. Ao apoiar a minha cabeça sonolenta sobre o vidro embaciado da janela, os meus olhos turvos puderam comprovar o motivo do barulho. O pai de Selim, o meu melhor amigo, tinha morrido. Todo o bairro era eco da sua morte. Saí a correr para a rua sem botas nem casaco, mas a voz de advertência da minha mãe fez-me voltar para vestir uma roupa mais apropriada. Os sapatos em frente da porta de Selim pareciam representar a dor dentro da casa. Era evidente que todos tinham chegado ao mesmo tempo. Todos tinham vestido o qu...