Silêncio
Era um dia de inverno. Parecia que tinham colocado um frigorífico sobre Ancara, soprava um vento gelado. As ruas estavam cobertas por uma neve fina e branca. Os telhados reflectiam a inocência das rendas de um vestido de noiva. Escondi-me dentro da cama para não acordar. Tapei a parte do traseiro que tinha ficado fora do cobertor, e enquanto tentava continuar a dormir, ouviam-se ruídos fora de casa. Era como uma sinfonia frágil e desagradável. Ao apoiar a minha cabeça sonolenta sobre o vidro embaciado da janela, os meus olhos turvos puderam comprovar o motivo do barulho. O pai de Selim, o meu melhor amigo, tinha morrido. Todo o bairro era eco da sua morte. Saí a correr para a rua sem botas nem casaco, mas a voz de advertência da minha mãe fez-me voltar para vestir uma roupa mais apropriada.
Os sapatos em frente da porta de Selim pareciam representar a dor dentro da casa. Era evidente que todos tinham chegado ao mesmo tempo. Todos tinham vestido o que encontraram à mão; a proximidade que as pessoas sentiam com o falecido fez com que alguns tivessem saído com os sapatos de casa calçados. Pensei se seria apropriado apresentar-me em casa do falecido com aquele aspecto, o que diriam prevalecia inclusive naquelas circunstâncias. Ao tocar à campainha, uma menina pequena abriu-me a porta. Apesar de ser muito nova, parecia sentir a realidade da morte e indicou-me a sala onde estava Selim. Ao entrar na sala vi como Selim e outros miúdos tentavam superar o trauma da morte em silêncio. Na sala anexa, a mãe de Selim e as suas tias idosas demonstravam o seu luto pelo falecido com choros e lamentos incompreensíveis. Na sala que ficava mesmo em frente a nós alguns homens adultos, outros idosos, os tios de Selim e vários rostos conhecidos do bairro olhavam fixamente para o tapete do chão sem levantar a cabeça. No tapete havia um motivo que pertencia a cada um. O silêncio de respeito pelo falecido estava representado no tapete com formas geométricas. “Acompanho-te na tua dor”, disse a Selim. Ele respondeu-me com um “obrigado.” Não havia muito mais a dizer perante a morte. Também eu baixei a cabeça e tratei de encontrar no tapete do chão uma forma geométrica adequada ao meu mundo interior. Quando chegavam os chás, fazia-se uma pausa nos lamentos. Para os miúdos do bairro que tinham vindo e para mim era um teste com a morte. Queríamos mostrar o nosso respeito pelo morto sem provar a comida que nos ofereciam. Podíamos entender-nos entre nós sem necessidade de levantar as cabeças, mas os ruídos que provocavam os nossos estômagos famintos eram mais fortes do que as condolências. Uma senhora bonita trouxe uns bolos e umas bolachas e colocou-os à nossa frente. Ninguém queria ser o primeiro a estender a mão naquele ambiente de dor. Voltavam a ser servidos os chás e Selim convidava-nos a comer, “rapazes, porque não comem?”. Era como se Selim, que tinha ficado sem pai, fosse agora o nosso pai.
Não me recordo quem primeiro estendeu a mão, mas a seguir todos levámos as mãos à comida para saciar a nossa ânsia. Quando no interior do corpo de uma pessoa se esconde uma criança pequena, a alegria pode exteriorizar-se a qualquer momento, inclusive nos momentos mais cruéis da vida. Selim sorria, nós empanturrávamo-nos de bolachas e ele não conseguia parar de rir. Sem ligar à ciência ou à psicologia, Selim queria continuar a ser uma criança. A nossa surpresa ao ver Selim a rir, não durou muito, também nós rimos a bandeiras despregadas. “Filho, o teu pai acabou de morrer, não te rias”, advertiu-o a mulher bonita que trazia os chás, como que a ensiná-lo a comportar-se perante a morte. “Selim, saímos para apanhar um pouco de ar?” disse-lhe ao ver como Selim continuava a rir-se. O brilho do seu rosto era a vitória de uma criança perante a morte. Sem dizer nada aos mais velhos, pegámos nos nossos casacos e fomos para a rua sem ninguém dar conta.
Ao sair, todos corríamos atrás de Selim sem saber aonde íamos. À frente, Selim guiava a nossa rota. Os que tinham sapatos de casa avançavam lentamente e ficavam afastados do pelotão. Cansados, sentávamo-nos no chão, mas sabíamos que aquele era o dia de Selim e faríamos o que ele dissesse. Selim caminhou à frente como se dissesse com os seus olhos tristes que o seguíssemos. Primeiro fomos ao salão de jogos, expulsámos, empurrando-os com os ombros os miúdos mais novos, e deixámos que Selim nos ganhasse. Apesar de sermos todos novos de mais para entrar no salão de bilhar, entrámos como se fôssemos já adolescentes. Não sabíamos o que Selim sentia e vivia por dentro, era uma incógnita para nós, e talvez fosse melhor não saber. Aborrecidos com os tacos de bilhar que nos superavam em altura, voltámos a sair para a rua. “Selim, toda a gente em casa pergunta por ti”, disse-nos um miúdo que se cruzou connosco. “Está bem, vai tu para casa, eu irei daqui a pouco”, respondeu-lhe Selim como que a dizer que queria partilhar a sua dor connosco apesar do frio que se fazia sentir em Ancara. Nós éramos os seus melhores amigos, éramos como irmãos. Era como se os sorrisos sem motivo que esboçávamos ficassem bem no frio de Ancara.
Ao caminhar entre risos, os comerciantes do bairro fixavam-se em Selim, ”Como é que se pode comportar assim um miúdo que acaba de perder o pai?” diziam. Mas isso não importava para Selim, ele era capaz de superar isso tudo.
De repente , o tio de Selim apareceu à nossa frente. Ao ver que Selim se ria, franziu de tal maneira as sobrancelhas que parecia que a neve dos telhados ia congelar. ”Não tens vergonha? Que fazes na rua? O teu pai acabou de morrer hoje...” Selim baixou a cabeça em silêncio, talvez procurasse no chão, entre a neve, um pormenor para observar como o do tapete de casa. “Estou a voltar para casa, tio.” A voz baixa de Selim era tão comovente que os nossos corpos de criança se transformaram de repente nos de um adulto. Selim tinha ido cumprir o serviço militar, Hakan tinha-se casado e Veli já tinha sido pai... Começámos a caminhar como homens adultos. Enquanto toda a gente tentava explicar-nos como nos devíamos comportar perante a dor, era Selim quem nos dizia as palavras mais eloquentes. “Não vamos para casa” disse-nos olhando-nos nos olhos quando o seu tio se dirigia a outra rua para tratar dos assuntos do enterro. Tínhamos prometido que naquele dia faríamos tudo o que Selim dissesse. Ao encontrar um lugar sem ninguém, começámos a falar de tolices. Não sei de que se lembrariam se fechassem os olhos e se transportassem à vossa infância neste momento, mas estou certo de que seria parecido com o que Selim nos tinha explicado.
Começámos a sentir fome e gastámos as últimas moedas que tínhamos em guloseimas. Todos falávamos da miúda de quem nos tínhamos apaixonado e ríamo-nos entre mentiras. Mas o frio de Ancara não era tão inocente como a mentira de uma criança...Um de nós vigiava para que nenhuma pessoa do bairro nos visse. Temíamos tanto que alguém nos visse e nos dissesse alguma coisa que inclusivamente abríamos os pacotes de batatas fritas sem fazer barulho. Quando Selim começou a falar da rapariga de quem se tinha apaixonado, todos queríamos acreditar. Todos começámos a imaginar a história de amor de Selim. Todos assumimos que naquele momento se podia mentir para aceitarmos com humor o que estávamos a viver. Ao beber da gasosa que segurava, Selim fixou os olhos nas nuvens. Ao baixar a cabeça, olhou-nos com os seus olhos aflitos, mas ao mesmo tempo sorridentes. Ao olhar para as nuvens talvez tenha pensado que o seu pai o estivesse a observar. Talvez o seu pai lhe estivesse a sorrir por entre as nuvens da mesma forma que Selim nos sorria a nós... Quando começávamos a falar entre nós, Selim calava-se e só sorria. Eu contava alguma coisa, não importava o quê, o importante era a nossa atitude conjunta perante a dor. Éramos crianças e queríamos continuar a sê-lo. Toda a gente já quis alguma vez continuar a ser criança. Sou da opinião que inclusive as crianças que sofreram penas muito grandes quererão voltar a ser crianças quando forem adultos. Se vocês tivessem estado ali e tivessem bebido as gasosas como nós, também pensariam nas mesmas coisas. “Esta manhã comeram os bolos como animais” disse Veli, o mais calado do grupo. E começámos a rir a bandeiras despregadas todos ao mesmo tempo. Ao rir-me, não pude evitar derramar as batatas que tinha na boca e beber goles da garrafa de gasosa como se estivesse brindando a alguma coisa.
"Calem-se, rapazes!” disse Selim com os olhos lacrimejantes ao baixar o olhar das nuvens. Calámo-nos todos e perguntámos-lhe se estava bem. Nesse dia Selim era nosso pai, nosso irmão mais velho, nosso espírito e, sobretudo, parte do nosso coração. “Calem-se rapazes! Hoje morreu o meu pai.”
Tradução do conto:
“Silencio”, in “Silencio”, Engin Akyürek
1ª edição , Junho 2020
“Sessizlik”, in “Sessizlik”, Engin Akyürek
6ª edição, Dezembro 2018

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