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Um suspiro na escuridão”



Hakan fez-me chegar o seu tom de voz entristecido por entre suspiros do outro lado do telefone:

-Morreu o meu avô...

Ismet, o avô de Hakan, tinha sido o mentor de toda a minha infância, os seus olhos cegos eram os guias espirituais da minha alma. Uma doença grave que tinha tido durante a infância tinha-o deixado cego, mas ele conseguira encontrar as cores que iluminavam o seu mundo escuro, tinha-as metido no seu coração de menino que conservou durante a sua vida de noventa anos... Não se preocupava porque os seus olhos não podiam ver. Quando lhe falavam da escuridão ou dos seus olhos que não podiam ver, costumava tirar um cigarro de um dos três maços de tabaco que fumava por dia para lhe dar uma passa e mudar de tema. Parecia mais jovem do que as outras pessoas da sua idade e costumava caminhar direito como um espeto. Apesar de ser a sua mulher Hatice, quem o vestia, costumava usar sempre uma camisa e uma gravata imaculadas. Se perguntassem por ele a um vizinho, diria que era alguém indiferente, alguém que não se preocupava com nada e que esboçava sempre um meio sorriso. Ninguém me perguntava por ele, mas se o fizessem poderia dizer muitas coisas. Os seus olhos cegos, estavam sempre sorridentes, convidavam-nos a entrar no parque de diversões que acolhia no seu mundo escuro; tentava sempre ajudar-nos quando Hakan e eu fazíamos alguma travessura que merecesse a repreensão dos nossos pais...

Os seus cigarros feitos à mão eram uma obra de arte, via-se neles a mão-de-obra de um artesão. Teria gostado que vissem como ele segurava os seus cigarros, como os acendia, como lhes dava uma passa e expirava o fumo como se estivesse a ler poemas românticos. Os seus filhos costumavam esforçar-se muito para que deixasse o ditoso tabaco, mas de cada vez que puxavam o tema o velho Ismet costumava dar uma passa no cigarro e respondia-lhes que viera ao mundo para desfrutar. Não tinha perdido o seu sorriso, nem tão pouco o norte...Costumava caminhar com passos curtos e chegava ao seu destino sem pedir ajuda a ninguém. Fruto da solidão que lhe provocou a morte da sua mulher Hatice, surgiu-lhe uma ligeira corcunda, tinha perdido a sua companheira de uma viagem de cinquenta anos, a pessoa que tinha sido a guia da sua vida.

A cada 23 de Abril e 29 de Outubro (1) costumava chamar vários táxis para levar todas as crianças do bairro às celebrações do Estádio 19 de Maio de Ancara; tinha sempre um sorriso marcado em forma de meia lua no seu rosto. Costumávamos ir em dois ou três táxis em fila, tocando a buzina e com bandeiras nas mãos. “Os feriados têm de ser celebrados como o que são” costumava dizer Ismet...

No primeiro dia de celebração do Bayram (2), a minha mãe tinha deixado a casa a brilhar para receber os convidados. Todos vestíamos os nossos melhores trajes, havia sorrisos nos rostos e a mesa de centro estava estrategicamente colocada para receber os convidados. Os chocolates esperavam pacientes, os bombons costumavam deixar-se para as crianças e aos convidados que tocavam à campainha costumava-se derramar colónia (3) com aroma de limão para os felicitar pelo Bayram. Ismet gostava muito do meu pai e costumava vir sempre visitar-nos no primeiro dia das festividades. Havia umas normas não escritas relacionadas com o grau de afecto: as visitas do primeiro dia eram mais valiosas, as que ficavam para o último dia eram mais protocolares, uma espécie de formalidade. Eu dei um chocolate a Ismet e ele agradeceu dando-me uma gratificação. Independentemente do tema da conversa, era sempre Ismet quem contava as histórias e eu não parava de soltar gargalhadas até que o meu pai, com um ligeiro gesto com as sobrancelhas, me obrigava a não exteriorizar o meu sorriso. No entanto, a gargalhada de uma criança provocada pelas histórias contadas por um homem idoso era um sinal de que nesta vida tínhamos que rir e soltar uma gargalhada por quase tudo.

Ismet apagou o cigarro e meteu a mão no bolso interior do casaco para acender um outro. Depois de verificar com a mão que o maço tinha acabado, o meu pai ofereceu-lhe um dos cigarros que estavam na mesa de centro.

- Os meus não são iguais, eu não fumo esse tabaco – disse Ismet.

Naquela época não se fumava nas varandas ou nas cozinhas, era costume fumar-se no lugar mais confortável da sala-de-estar das casas.

        • Eu posso ir comprar um maço, Ismet – disse-lhe.

        • Não será um incómodo para ti, pois não? - respondeu-me.

Ainda não se tinham servido os cafés e havia muitas histórias para escutar. De imediato pus o dinheiro no bolso e corri até à loja. Queria chegar rapidamente e estar de volta a casa quando estivesse a ser servido o café.

Por ser o primeiro dia do Bayram, a loja do bairro estava fechada. Tinha começado a escurecer ligeiramente. Sem ter recuperado o fôlego, corri em direcção à loja do bairro de cima, mas ao ver o letreiro de fechado fiquei sem ânimo. Ou regressava a casa sem os cigarros ou tentava encontrar alguma loja aberta. O sentido de responsabilidade de uma criança é generoso e honesto, ao contrário do dos adultos...

Não podia regressar a casa com as mãos vazias, corria na escuridão em busca de uma loja aberta. Tinha-me afastado tanto de casa, que só voltaria a ver Ismet se ele ficasse a passar a noite lá em casa. Mesmo que as minhas pernas curtas me tivessem feito exagerar a distância, devia estar a uns três ou quatro quilómetros de casa. A roupa que tinha vestida já não parecia apropriada para um dia festivo (4), estava suja de pó e lama e tinha um ar andrajoso. Doíam-me os pés, os salpicos das poças do chão juntavam-se com o suor que me caía do cabelo, era como se o meu corpo fosse um lago. Em cada passo podia ouvir o ruído da minha respiração e sentir o suor nas axilas e no pescoço.

Precisamente quando ia voltar para casa, vi as luzes deslumbrantes do letreiro de uma loja aberta escondida entre dois edifícios. Então pude respirar, entrei na loja com a tranquilidade de ter alcançado o meu objectivo. Mas assustei-me ao pensar que talvez não tivessem o tabaco que Ismet fumava. O vendedor olhou para a estante dos cigarros e encontrou o maço escondido lá no fundo. As palmas das mãos onde segurava o dinheiro com força estavam ligeiramente húmidas, a cabeça e o corpo cheios de lama e de pó por ter corrido. Não tinha um aspecto muito limpo...

-Não os vais fumar tu, certo? - perguntou-me o vendedor.

Era uma pergunta que não esperava e umas vozes desconhecidas revolveram-se no meu interior.

-Também uma caixa de fósforos - disse ao empregado quando me estava a dar o troco.

Será que me ia pôr a fumar os cigarros de Ismet? A adrenalina criada pelo sentimento de culpa provocou uma tensão maliciosa no meu corpo de criança. Tinha de me afastar dali rapidamente sem olhar para trás. Ao chegar a um lugar resguardado, abri o maço pelo fundo com a emoção absurda de fumar um cigarro pela primeira vez e peguei num. Mais tarde teria de pensar nalguma artimanha para simular que o maço estava fechado. Pus o cigarro entre os lábios e acendi-o. Era como se alguém me tivesse posto umas ervas na boca e estivessem a arder. Comecei a tossir sem parar, tanto que os meus olhos começaram a derramar lágrimas. Atirei o cigarro ao chão sem deixar que o seu cheiro ficasse no meu rosto ou na minha mão.

Não tinha relógio no pulso, a minha noção do tempo era a distância que havia até casa. Enquanto pensava em como dar o tabaco sem que se apercebessem que tinha tirado um cigarro, soprava ar nas palmas das mãos para controlar o cheiro a nicotina.

Ao aproximar-me de casa vi como os meus pais e os vizinhos corriam de um lado para o outro aflitos. Gritavam o meu nome, que se transformava num eco intensificado pelo silêncio.

Todo o bairro tinha saído à rua à minha procura. Escondi-me atrás do poste de electricidade e dava voltas à cabeça, não sabia o que fazer nem como me devia comportar. Tinha demorado mais do que imaginara na minha cabeça. Ao mesmo tempo, o buraco do maço de tabaco tornava-se cada vez maior, o que provocava um sentimento de culpa que me fazia permanecer no meu esconderijo e era mais forte do que a preocupação que tinham as pessoas em me encontrar.

Observava as pessoas que me procuravam. A aflição no rosto da minha mãe, o ar de recém-acordado de Hakan tentando compreender o que se passava, as conjecturas dos vizinhos, os consolos à minha mãe...Tudo o que via era verdadeiro. Era um sentimento autêntico que os melhores actores nunca conseguiriam interpretar, nem os grandes realizadores transmitir. Ver aqueles sentimentos verdadeiros tinha afectado o meu pequeno corpo. A realidade devia ter um limite, sentia-me como se estivesse a espiar os quartos das pessoas que conheço, como se estivesse a observar o seu lado mais íntimo...

Tinha-me apoiado no poste da electricidade e observava de longe todo o bairro. Ao ver como a preocupação da minha mãe era cada vez maior e como estava a chegar um carro da polícia, o medo começou a provocar-me uns pequenos calafrios. As luzes do carro da polícia pintavam o bairro de azul e o meu rosto de vermelho, era como se estivesse criado um ambiente que reflectia o meu mundo interior.

As sombras que passavam junto a mim à minha procura, pareciam-me aterradoras. O tempo tinha arrefecido um pouco, o frio de Ancara tinha começado a mostrar o seu rosto com pequenas mordidelas. Estava cansado e acabei por me deitar no chão... Uma sombra caiu sobre o poste de electricidade onde tinha apoiado a cabeça. Então, uma mão quente, mais real do que a sombra, tocou-me no pescoço. Quando me voltei, vi o velho Ismet:

-Onde te tinhas metido, malandro! - disse-me.

Não soube o que dizer. Surpreendeu-me muito que Ismet me tivesse podido encontrar na escuridão.

-Aqui tens, Ismet, os teus cigarros – disse-lhe.

Pegou no maço de tabaco e pô-lo no bolso. Agarrou-me pelo pescoço com as suas mãos quentes.

-Vem, vamos para casa...

Ao caminhar até casa, o silêncio apoderou-se do bairro, todos tinham ficado surpreendidos por ter sido Ismet a encontrar-me. Ele caminhava como um herói.

-Não voltes a fumar um cigarro, de acordo? - disse-me em voz baixa enquanto apertava ligeiramente o meu pescoço e se baixava à minha altura.

Fiquei em silêncio, cada frase que tentava pronunciar perdia-se na escuridão. Não voltei a fumar nunca mais na minha vida e cumpri com a palavra de honra que tinha dado a Ismet.



Hakan fez-me chegar o seu tom de voz entristecido entre suspiros do outro lado do telefone:

-Morreu o meu avô...

Ao desligar o telefone, todas as recordações de infância que tinha de Ismet rondaram cada esquina da casa, e ao unirem-se à brisa que entrava pela janela, acariciavam-me como só o sabia fazer o velho Ismet. Tinha um ligeiro sorriso no rosto e um fino palito entre os lábios.

Fechei os olhos e suspirei na escuridão...



Notas:

1- Dias festivos na República da Turquia.

2- Festividade religiosa ou laica.

3- Tradicionalmente a colónia usa-se na Turquia para dar as boas vindas.

4- No Bayram compra-se roupa e sapatos novos.


Tradução do conto:

Un suspiro en la oscuridad”, Engin Akyürek

in “Silencio”, 1ª edição, Junho 2020


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