Príncipe Real
“O amor não mata. A paixão e o ciúme, sim. Primeiro deixamos de ver, logo deixamos de ouvir e caímos num fosso profundo de angústia, dor e raiva.”
Anónimo
“Em todos os indícios que descobria na cidade, não conseguia ler senão o seu próprio passado, os rastos do seu passado comum. Ignorava por quem ela o tinha deixado, ou então, não queria sabê-lo, porque a qualquer lado onde fosse, em qualquer parte onde encontrasse a marca desse passado comum, dizia de si para si que o homem com quem a sua mulher tinha ido ter ou o lugar onde estava faziam necessariamente parte do seu próprio passado!”
“Os Jardins da Memória”,
Orhan Pamuk
Manuel passeava pelas Avenidas Novas com um ar blasé, cabelo pelos ombros, livro debaixo do braço e por vezes um vinil acabado de comprar na “Sinfonia” ou na “Roma”; como se tivesse participado do Maio de 68, não fora o facto de ter pouco mais de dez anos, nessa época.
A sua relação com a vida era descomprometida e desinteressada assim como a forma como se dava com os outros; ou seja, não se dava. Sabia ser tão intenso quanto superficial, envolvendo-se em conversas aparentemente apaixonadas sobre literatura, música ou cinema.
E esse descomprometimento com todos e com a vida cativou Maria.
Quando Maria o conheceu, também ela passeava sem rumo na nova Lisboa dos anos oitenta. A sensação de liberdade, a brisa no rosto, ao cair das tardes de Outono. Porque de vento na cidade em Agosto, Maria não gostava. Aliás tentava sempre não ficar em Lisboa, em Agosto.
Esse vento quente e seco do entardecer, que soprava vindo do Magreb, na cidade, só lhe era minimamente suportável, junto ao rio.
Cais do Sodré, Ribeira das Naus... de Belém não gostava. Aí o vento era frio e forte, incomodativo mesmo. Entranhava-se, sabia a sal e gelava-lhe a alma.
Tudo isto acontecia quando a cidade ainda era sua. E Maria sentia-se livre e desassossegadamente feliz.
Apenas subia ao Bairro Alto para, com curiosidade e avidez, percorrer as bancadas e estantes dos alfarrabistas. Nessa época, quase porta com porta, entremeados pelos antiquários e portais de entrada para os primeiros andares de escritórios e firmas de advogados.
A literatura era a sua paixão, tinha alguns autores predilectos e era esses que procurava incessantemente. As primeiras edições fascinavam-na. Era atraída pela memória que essas páginas encerravam, algumas já muito amarelecidas pelo tempo que as impregnara.
Maria sabe que um dia o deixará...
“O amor não mata, mas a paixão e o ciúme, sim. Primeiro deixamos de ver, logo deixamos de ouvir e caímos num fosso profundo de angústia, dor e raiva.”
A paixão e o ciúme que Manuel sentia, levaram-no ao extremo, à loucura de desejar a morte de Maria.
Maria pressentia-o a cada nova demonstração de posse ou ciúme, que poderia ter como pretexto um simples olhar casual de outro homem na rua, até umas palavras trocadas com um colega de profissão, numa pausa do trabalho.
“Não me deixes! Prometo que vou mudar...Que queres que faça... é porque gosto muito de ti!”, dizia Manuel após cada acesso violento de ciúmes.
Maria sabe que um dia o deixará!
Príncipe Real.
Protegida pela sombra frondosa do cedro ancestral, Maria repousa na esplanada. Folheia o livro que trouxe consigo, mas não se concentra na leitura.
Da memória soltam-se luzes, aromas, sons, momentos vividos em noites loucas no Bairro Alto. Por instantes, Maria sorri. Sentia-se feliz nessas horas alucinantes, nessas madrugadas de música, muita música, por entre nuvens de fumo e álcool, os cigarros de Manuel e o álcool de Manuel e Maria, que não bebia nem fumava tabaco, sequer, sentia-se inebriada e em êxtase também.
Os amigos de Manuel, que sempre os acompanhavam, tratavam Maria com camaradagem e simultaneamente com delicadeza. Mesmo quando o álcool já lhes corria em abundância nas veias e a luz do nascer do novo dia já se aproximava, Maria era a namorada do Manuel. E Manuel não manifestava qualquer sinal de ciúme ou de sentido exacerbado de posse.
Numa dessas noites, um dos amigos próximos já completamente etilizado, insinuou-se insistentemente e Maria começou a sentir-se desconfortável. Porém Manuel não reagia e parecia até nem se ter apercebido.
Nessa altura, Maria já se tinha apaixonado e não tardou a esquecer o incidente.
“Em todos os indícios que descobria na cidade, não conseguia ler senão o seu próprio passado, os rastos do seu passado comum. Ignorava por quem ela o tinha deixado, ou então, não queria sabê-lo, porque a qualquer lado onde fosse, em qualquer parte onde encontrasse a marca desse passado comum, dizia de si para si que o homem com quem a sua mulher tinha ido ter ou o lugar onde estava faziam necessariamente parte do seu próprio passado.”
Maria parou de ler e pensou que Manuel estaria agora perdido na cidade, onde o seu passado comum mantinha em suspenso o que poderia ter sido o seu futuro. Manuel não sabia por quem ela o iria deixar, mas a evidência da separação já se desenhava neste que seria o último encontro.
Maria mergulhou em pensamentos sombrios, a nostalgia instalou-se no seu coração e do seu mundo interior, em imagens a preto e branco surgiram as palavras necessárias.
Agosto, em Lisboa, o vento do fim-de-tarde, Maria desceu a Rua do Alecrim e em curtas passadas mecânicas chegou ao Cais.
O sol brilhava ainda, nas águas prateadas do Tejo, já envoltas em maresia, quando Maria mergulhou nessa imensidão profunda, a memória de Manuel.
Matosinhos, Setembro 2020 - Vila Real, Agosto 2021
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