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Uma noite”


Apercebi-me, pela gargalhada que soltou, que a rapariga sentada na mesa em frente era a minha antiga namorada. Ela não me tinha visto, porque se tivesse, teria reprimido o riso e não lhe teria dado rédea solta, rindo-se daquela maneira tão leve. Estávamos num restaurante de luxo e no seu interior só estavam clientes capazes de pagar uma conta muito cara. Tinha de controlar os olhares porque a minha actual namorada de há dois meses estava ao meu lado na mesa, e com o seu instinto feminino, poderia dar-se conta da situação. Era como se me tivesse apresentado num exame numa altura em que não estava preparado. O perfil de homem macho que tinha mostrado até então era como a camisa recém-passada a ferro que trazia vestida. As riscas duplas da minha camisa podiam mostrar a minha nudez interior. A vida moderna tinha este tipo de coisas, mas naquela mesa e naquele momento sentia-me como alguém primitivo.


Quando a minha antiga namorada reprimiu o tom da sua gargalhada, as barricadas que tinha erguido o seu sorriso repentino desvaneceram-se e tornou-se visível o homem que se sentava a seu lado. Parecia como se o seu tom de voz o tivesse envolvido, como se o tivesse coberto todo com uma lona de plástico. O homem que estava a seu lado e mesmo à minha frente devia ser o seu namorado. Os dois tinham um anel nos dedos, um trejeito sorridente nas maçãs do rosto e estavam sentados numa postura relaxada. Aquele homem à minha frente era como um ponto de referência entre o meu passado e o meu futuro. Se tivesse verbalizado uma ideia tão absurda, ter-me-ia rido de mim próprio. Mas não havia nada de que se rir, tinha uma nova relação e estava confortável, as dúvidas que tinha, não tinham comprometido a minha relação.


Se me tivesse levantado e ido embora ouvindo as “cócegas” que tinha no estômago nesse momento, nada teria acontecido e tudo não passaria de uma anedota. Mas algo irracional tinha acontecido com o meu corpo, era uma sensação de curiosidade que desconhecia e que se tinha apoderado da mesa onde me sentava. Não queria falar comigo mesmo, só queria levantar-me, desculpar-me e sair dali.

O sorriso forçado do meu rosto era como um espelho que reflectia a culpabilidade de um assassino ao voltar ao local do crime. Havia ali uma história de amor inacabada ou algumas frases que tinham ficado por dizer?Às vezes as pessoas não são capazes de expressar em palavras o que sentem. Assaltavam-me imagens e frases de cuja existência não me lembrava e que estavam escondidas num lugar que desconhecia. Para além de frases que não me atrevia a ler, apareciam também fotografias que me acariciavam.


A carne que me tinham servido crua passou-me a vermelhidão para o rosto e a minha cara estava colorida como as faces de um adolescente. A minha namorada deve ter sentido a angústia que o meu corpo reflectia:


_ Querido estás bem?


_ Sim, estou.


_ Normalmente não costumas comer tão depressa, por isso perguntei.


_ Tinha muita fome.


Não me tinha dado conta de que tivesse comido tão depressa. Pensava que só tinha bebido um copo de água e que tinha comido apenas um pedaço de carne.


A minha antiga namorada, que eu observava de soslaio, também estava a comer carne. Antes gostava dela muito cozida, só a comia de vez em quando e costumava preferir alimentar-se de legumes. Se estava a comer carne era porque se tinha levantado cedo para fazer desporto e tinha tido um dia intenso. Há três anos que não a via, mas pelos vistos ainda não tinha conseguido ser vegan, tinha voltado a adiar os seus planos. Apesar do tempo mudar muitas coisas, havia algumas que não podia mudar. Quando vi a minha ex a cortar a carne muito cozida, pareceu-me como se estivesse a cortar os meus músculos, e ao esmigalhá-la na boca, era como se mastigasse a minha alma como um chiclete.


_ A carne está muito boa_ disse à minha namorada.


_ Estás bem?


Decidira responder à pergunta com outra pergunta.


_ Dou-te um pedaço de carne?


_ Eu não como carne, não sabes?


Era como se nesse momento tivesse ficado em branco à mesa. Tinha-me esquecido das coisas que sabia e tinha compreendido que as coisas não voltariam a ser iguais. Se não tivesse visto a minha antiga namorada, as perguntas que a vida me fazia nesse momento teriam ficado para o exame seguinte. Também não era necessário que a vida me perguntasse nada.

As respostas às perguntas que não me atrevia a fazer a mim mesmo, tinha-as à frente, só a duas mesas de distância. Não sabia se era feliz na minha mesa, mas ver a felicidade da minha antiga namorada tinha-me feito sentir mal. O ser humano caminha sobre uma corda muito fina, a qualquer momento se pode transformar num objecto de ferro-velho enferrujado e húmido.


Era impossível que a minha ex não me tivesse visto. Estava mesmo à frente dela, não havia maneira de não me ver. Ao contrário de mim, sabia controlar a situação, o seu instinto feminino permitia-lhe transformar a distância de duas mesas apenas até lugares muito distantes.

Antes de passar à sobremesa, a minha antiga namorada passou lentamente entre as mesas para se dirigir à casa-de-banho. Pareceu-me como se uma brisa me tivesse afagado o rosto, foi como se o passado me tivesse tocado no cabelo com as suas mãos. A água que acabara de beber tinha deixado a sua humidade nos meus lábios. A luz que tinha em cima mostrava a humidade do meu rosto, parecia o vómito de um bebé numa babete. Parecia um caravaneiro que tinha encontrado água no deserto e a tinha derramado sobre a cabeça.


Utilizei um guardanapo que parecia uma toalha para secar a humidade da boca, levantei-me da cadeira e comecei a caminhar lentamente. Mas ia segui-la até à casa-de-banho? Em dez passos vieram-me à cabeça todas as minhas preocupações morais. Ao levantar-me rápido da mesa também peguei no telefone. A primeira coisa que me veio à cabeça foi fazer como se estivesse a falar ao telefone antes de chegar à casa-de-banho. De longe devia ter um ar gracioso, de perto o de um idiota.

Era-me muito complicado simular que falava ao telefone. Os empregados que passavam da esquerda para a direita olhavam-me rindo-se como se soubessem que estava a mentir. Para não ficar ainda mais evidente, às vezes acenava como se estivesse a ouvir alguém do outro lado da linha. Por outro lado, sem perder a seriedade de alguém que tem uma conversa telefónica, olhava na direcção da minha antiga namorada.


Quando a minha ex saiu da casa-de-banho, o som dos seus tacões fez com que soasse o alarme. Não só se me tinha modificado o rosto, como também todas as células do corpo. Era um momento em que a intuição feminina não lhe ia servir para nada, não tinha escapatória... Olhámo-nos por um espaço de tempo que não chegaria a um quarto de segundo, ficámos calados, pareceu-me como se tivéssemos comido e bebido juntos. Ela parecia não estar disposta a parar o tempo. Não queria criar um novo momento nem outro espaço no tempo. Compreendi que queria ir embora porque não encontrou um lugar para pôr as suas mãos, pela forma de retocar o cabelo e pela postura do seu corpo. O meu relato é longo, mas na realidade não demorou nem um segundo a sair do meu lado, deixando-me a sua brisa. O ruído que faziam os seus sapatos enquanto caminhava até à sua mesa, cravava-se no meu cérebro como um formão.


Saí do restaurante. Precisava de respirar ar fresco. Queria desfazer a tontice que acabara de fazer com o ar fresco que inspirei, queria esconder-me e ficar ali por um momento.

O “valet”estava na minha frente a fumar e parecia tão à vontade que tive vontade de lhe partir a cara. Os motivos do meu desnecessário enfado podiam ser assim tão tragico-cómicos.


_ Podes dar-me um cigarro?


_ Claro que sim.


O “valet”colocou o cigarro que tirou do bolso na minha boca, como se tivesse estado à espera daquele momento. Não encontrou o isqueiro e acendeu o cigarro utilizando o que tinha aceso na boca.

_ Espero que não te enoje.


Enquanto me perguntava se tinha aversão, pôs o cigarro que segurava na ponta dos dedos, na minha boca.


_ Não, não me importa.


Ia voltar para dentro antes que o frio da noite entrasse no meu corpo. Começaram a cair uns flocos de neve. Parecia que tinham vertido açúcar em pó sobre os carros. Aquele cenário era próprio daquela noite.


_ Podes dar-me um cigarro também a mim?


_ Claro, senhora.


A minha ex-namorada também tinha saído, tinha-me seguido antes de chegar à sua mesa. Quando o “valet”ia a acender o cigarro da minha ex com o seu, tirei-lho da mão e acendi-o com a minha boca. Não queria que o “valet” lhe voltasse a perguntar se tinha nojo. A minha ex, eu e o “valet” fumávamos em silêncio. O fumo que exalávamos formava uma imagem engraçada.


_ Começaste a fumar?_ perguntei à minha ex enquanto olhava para o cigarro manchado de baton.

_ É a primeira vez que fumo. Mas parece que tu começaste a fumar...


_ Também para mim é a primeira vez.


Os dois tossíamos juntos e o tom das nossas vozes de homem e de mulher eram sempre diferentes. A tosse era a definição do nosso passado. O “valet” não tossia, as suas células conheciam já o fumo que inalava, por isso podia expirá-lo tranquilamente por entre os seus dentes amarelecidos. Não queria terminar o cigarro. Se não fosse por pudor tinha pedido mais um cigarro ao “valet”. De repente cruzei o olhar com a minha ex-namorada, parecia que nos estávamos a beijar enquanto exalávamos o fumo pela boca.


_ Chega o 28...


A voz do “valet”estragou aquele ambiente a cheirar a fumo e a minha ex voltou apressada para o interior do restaurante. Desta vez sim queria partir o nariz ao “valet”. Além disso, desta vez tinha motivos para me aborrecer, era uma ira induzida difícil de conter.

O cigarro que segurava na mão não tinha nenhum sentido, o seu cheiro estava em todo o corpo, de cima a baixo. O meu telefone tocava rancoroso, a minha namorada actual esperava-me lá dentro e era a quinta chamada perdida que me fazia.


Caminhei até às mesas com o telefone na mão, o casaco vestido e com o cabelo a cheirar a fumo. Ao entrar, o meu rosto tinha uma expressão difícil de descrever em palavras. A minha ex-namorada estava sentada na minha cadeira com o seu namorado ao lado como se estivessem a celebrar algo. Em momentos como este, o cérebro não é capaz de reagir.


Que faziam a minha namorada, a minha ex e aquele homem cujo nome desconhecia na minha mesa? Ao aproximar-me da mesa, podia ouvir o som da minha inquietação. A minha namorada levantou-se ao ver-me chegar:


_ Vem querido. Este é Ümit, um amigo da Universidade, há muito tempo que não nos víamos! E esta é a sua noiva, perdão, esqueci-me do teu nome...


_ Olá.


_ No fim-de-semana é o seu casamento e convidam-nos para irmos. Iremos, não é verdade?


_ Claro que vamos_ respondi depois de limpar com um suspiro o cheiro a tabaco da minha boca.


tradução de “Una noche”, in “Silencio”,Engin Akyürek, 2020


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