“Hasan, o filho de Ahmet”
Hasan era filho de Ahmet...Podia ter a pele escura e apagada, mas a energia que se soltava dos seus olhos era capaz de iluminar a cidade inteira. Hasan era o filho de nove anos de uma família que tinha migrado de uma ponta à outra da Turquia.
O meu encontro com Hasan não foi como o que costumava ter com as outras crianças que vendiam lenços descartáveis na rua. Ele adoptou uma atitude séria à minha frente, como se fosse um jovem que ia a uma entrevista de emprego. Apesar de o nosso primeiro encontro ter sido um pouco distante, quando me apetecia tomar um chá Hasan não demorava nem um segundo a trazer-me um à mesa onde me sentava. Não costumava responder às perguntas com outras perguntas, costumava pronunciar frases para dar respostas como se fossem perguntas. Nem o seu olhar nem a sua voz denotavam o mais pequeno vislumbre dos problemas familiares que devia ter. Não falava muito, e quando o fazia, costumava ser com uma expressão e uns modos suaves como o veludo.
O que tinha vivido durante os primeiros seis anos da sua vida na cidade de Kars, e depois em Istambul durante três anos, davam a Hasan uma experiência que o convertia numa pessoa madura mais do que num menino de nove anos.
Quando me via costumava aproximar-se da minha mesa caminhando sobre a ponta dos pés, como se tivesse medo de verter ou partir alguma coisa a meu lado. A elegância não tinha idade, a delicadeza nem sempre estava na voz ou nos olhares. Apesar de nâo ser de esperar num menino de nove anos como Hasan, o filho de Ahmet, era como se ele fosse o representante da elegância.
_ Hasan, o que gostarias de ser quando fores crescido?
Pousou o pacote de lenços descartáveis sobre a mesa, como se nunca se tivesse deparado antes com aquela pergunta:
_ Não sei, mas serei algo de bom.
_ A que te referes com ser algo de bom?
_ Não sei, a algo bom.
Não queria ser médico nem piloto, isso eu podia intuir. Não o podia expressar em palavras, mas na realidade só queria ser uma boa pessoa. Ou talvez fosse o que eu queria entender. Também podia ser piloto ou médico e, ao mesmo tempo, uma boa pessoa.
_ Até que horas ficas aqui de noite? Como voltas para casa? _ Era uma pergunta que queria mostrar a minha proximidade em relação a ele. Na realidade a resposta a essa pergunta estava na multidão de crianças que havia em redor.
_ Vivemos em Ümraniye.(1) À noite não circulam os autocarros nem sequer os mini-autocarros, por isso juntamo-nos, os meninos que vendemos lenços descartáveis com os que vendem flores e vamos de táxi. Costuma custar dez liras por pessoa. Como o taxista é nosso vizinho, costuma fazer-nos um pequeno desconto, claro.
_ Então vais de táxi, não está mal, pois não?
_ Não está tão bem quando não consigo vender muitos lenços descartáveis.
Falar sobre o sofrimento das pessoas e ouvi-las podia ter sido valioso naquele momento, mas a história de Hasan, o desemprego do seu pai, a sua chegada vindo da sua aldeia em Kars, a doença da sua mãe deveriam ter permanecido como a história mais secreta do mundo.
_ Gostas de Istambul?
Apesar de gostar de Istambul, quando me falava de Kars e da aldeia onde tinha nascido, era como se no seu interior sonhasse com um caminho cheio de pó que o levava até à sua aldeia. Quando alguém gritava ou se zangava com ele, via e percorria esse caminho que lhe tinha ficado entre o coração e a mente.
Hasan, o filho de Ahmet, tinha-se tornado um dos meus melhores amigos. Às vezes passava por ali para tomar um chá, só para falar com ele. Falávamos das nossas coisas, sobre os nossos assuntos do dia-a-dia. Quando se zangava com alguém, não dizia palavrões como as outras crianças e timidamente guardava para si essas frases que ficavam presas entre a boca e a língua. Quando a vergonha entrava na alma de uma pessoa, dava voltas como uma lombriga numa maçã. Entrava até ao nosso interior, até ao núcleo e tornava-se parte do nosso organismo. Apesar de tudo, a vergonha era um sentimento bonito, era talvez o sentimento que melhor descrevia Hasan, o filho de Ahmet. As bochechas vermelhas e o olhar inocente encaixavam perfeitamente em Hasan.
A nossa amizade prolongou-se por um ano e meio. Vi-o pela última vez num dia de chuva do mês de Setembro. Saudámo-nos e despedimo-nos com um aperto de mãos masculino próprio de dois bons amigos. Não voltei a ver Hasan depois daquele dia de chuva. Perguntei por ele a todos os vendedores ambulantes. Teria acontecido alguma coisa? Nem as crianças mais crescidas sabiam onde estaria. Como não gostava que lhe fizessem muitas perguntas, a única coisa que sabia dele era que vivia no bairro de Ümraniye. Mas Ümraniye era um bairro enorme. Por onde poderia começar a procurá-lo? Telefonei todas as noites para todas as praças de táxis de Ümraniye para perguntar se algum táxi tinha transportado as crianças que vendiam lenços descartáveis. Numa das muitas praças de táxis para as quais liguei, disseram-me que havia um taxista que recolhia todas as noites várias crianças. Fui a correr para a praça de táxis para encontrar o taxista e ouvir em primeira mão a história de Hasan, o filho de Ahmet. De início o taxista sentiu-se incomodado, mas ao ver a determinação no meu rosto, respondeu sem saber muito bem porque é que eu tinha ido lá.
_Costumava recolhê-los na rua e levá-los até casa no meu táxi. Eu vivo no mesmo bairro que eles.
_Onde está Hasan? Tem-lo visto?
_Hasan é o miúdo moreno que tem um irmão mais velho, não é?
_Sim, tem um irmão mais velho.
_Deve ter voltado para a sua aldeia.
_Para Kars?
_Isso já não sei, estou-te a dizer a verdade.
Então o nosso Hasan, o filho de Ahmet, tinha voltado para a sua aldeia. Teria de acabar aqui a história ou quereria Hasan que escrevesse outra? Tinha saudades de Hasan e das nossas conversas.
Apesar de me sentir magoado, talvez Hasan tivesse encontrado o seu caminho asfaltado nas ruas cobertas de pó da sua aldeia. Nessa mesma noite decidi pôr fim à história de Hasan, mas a notícia que vi na televisão revolveu-me o estômago. Num dormitório, no centro do país, várias crianças cujos nomes desconhecíamos tinham morrido queimadas. As frases que ouvia não faziam sentido, ao ver aquelas imagens chorei desconsoladamente. Ao desligar a televisão veio-me à cabeça outra história. Talvez Hasan também tivesse sentido algo.
Porque as melhores histórias são sempre reescritas...
(1) – um bairro de Istambul
"Ahmet oğlu Hasan", Sessizlik, 2018
"Hasan, el hijo de Ahmet", Silencio, 2020

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