Koku, Sessizlik, 2018
Perfume, Silencio, 2020
Perfume
Há muitos anos...
Um cheiro começou a espalhar-se pela minha mochila. Levei tanto tempo para descobrir a origem desse aroma quanto uma criança para memorizar a tabuada. O cheiro que emanava do meu caderno tinha capturado o interior da minha mochila. A minha mochila tinha-se tornado a mochila de outra pessoa, e ela tinha vindo despedir-se. Esta fragrância era o cheiro da borracha perfumada de Ayça, que estava sentada na fila ao meu lado e a quem tinham caído os dentes da frente. O cheiro que se soltava das folhas do meu caderno tinha criado o mundo perfumado da criança que tentava fazer os deveres, na mesa de trabalho em casa. A relação entre o que se apagava e o aroma, mais do que filosófica era simples e real como a própria vida. Apagar significava também um pouco esconder. Comecei a coleccionar as minhas memórias, com o cheiro que emanava daquele caderno, como se estivesse a coleccionar selos. Este foi o início de uma paixão que se tornaria o hobby mais bonito do mundo. Quantas coisas eu memorizei enquanto apagava uma vírgula mal colocada. A borracha de Ayça, a miúda sem os dentes da frente, era a memória mais poderosa do mundo. Talvez por isso todas as coisas que na minha vida tentei apagar cheirassem a algo. Tentar apagar era um acto sobre-humano, e a vida não aceitava um erro como o de apagar uma vírgula. Anos mais tarde, talvez eu não me lembrasse do rosto de Ayça, mas tudo o que aprendi na escola vinha à minha mente graças ao aroma e ficou para o futuro.
Anos mais tarde...
Estava numa livraria, absorto olhando para as estantes dos livros menos vendidos. Mais do que numa livraria, eu sentia-me num supermercado, e fazia uma viagem literária por entre as estantes. Ao chegar à secção de literatura turca, o meu casaco, as minhas mãos e pés começaram a cheirar a perfume. Eu cheirava à esquerda e à direita para ver se a rapariga que estava parada entre os livros de desenvolvimento pessoal estaria também a sentir. O cheiro foi ficando mais intenso enquanto eu caminhava e ao respirar, libertava monóxido de perfume. O que é que aquele cheiro tinha feito para cercar o meu corpo?
Saí da livraria e entrei na casa-de-banho do café que havia em frente para lavar as mãos e a cara, para assim me libertar daquele cheiro. Ao lavar a cara e ao ver-me ao espelho, pensei que talvez tudo aquilo fosse um sonho e verti um pouco de água na cara. Uma pancada na porta devolveu-me de novo à realidade, e sem poder secar a cara deixei a casa-de-banho perfumada para o homem que esperava para entrar. Olhei com ciúmes para o homem que encontrei à porta da casa-de-banho. Era impossível que ele não sentisse o cheiro que se estava a espalhar por mim, e partilhar esse cheiro com aquele homem trouxe a palavra ciúme novamente à minha vida. Caminhava apressado, franzindo o nariz à esquerda e à direita para examinar os cheiros de cada esquina. Sabia que tinha de ir para casa para me meter debaixo do duche e libertar-me daquele cheiro. Ao abrir-se a caixa das recordações, o mundo convertera-se de repente num caldeirão de perfumes. Quando já me tinha cansado de cheirar tudo, encontrei um amigo no momento menos conveniente:
_ Tudo bem?_ perguntou-me.
Usando uma frase mecânica, respondi:
_ Estou bem. E tu?
_ Tudo bem, Se tens tempo podemos tomar um chá.
_ Vou para casa.
_ É só um chá...
_ Ouve, cheiro a alguma coisa?
_ Referes-te a suor?
_ Sentes o cheiro?
_ Nãaao...
_ Esse “nãaao...”deixou-me ainda mais confuso. Devia estar com as narinas entupidas.
_ Então não sentes nenhum cheiro vindo do meu corpo?
_ Nãaao...
Despedi-me do meu amigo e voltei outra vez à livraria. Na realidade sabia perfeitamente o que tinha que fazer. Precisava de três coisas, mas tinha voltado principalmente pela borracha perfumada. As borrachas coloridas e perfumadas com as cabeças de desenho animado, cujos nomes desconheço, cheiravam a detergente. Discretamente encontrei uma borracha que cheirava como a borracha de Ayça e levei um caderno e também um lápis e saí da livraria.
Estava numa mesa, com um lápis na mão e uma folha em branco... Como todos os actores protagonistas, a borracha perfumada estava consciente da importância da sua localização e parecia o convidado de honra da mesa. O cheiro tinha-se tornado parte de mim e começara a colorir a mesa onde me sentava. Comecei a escrever sobre a proveniência do aroma. As saudações, as primeiras frases, os olás...
Olá
Olá
Escrevi páginas e páginas sem sequer terminar o chá que tinha à minha frente. A harmonia causada por poder escrever frases bonitas fazia-me sentir noutro lugar. Não quis apagar nada, tudo era tão real como o que escrevi. Ao descrever o aroma, falei de todas as flores sem sequer colocar uma vírgula.
Olá
Tudo continuava com a inocência criada por um simples “olá”. Não tinha palavras para escrever frases más. À medida que ia escrevendo podia sentir como o aroma que envolvia o meu corpo se ia espalhando. Cada frase escondia um cheiro a manjericão; a crueldade e a rebeldia dos predicados rendiam-se ao “poder” do sujeito das orações.
Olá
Sublinhava a palavra como se fosse a palavra de amor mais bonita do mundo. Sabia que algumas palavras tinham cheiro e os quartos dos grandes poetas tinham um aroma que nenhuma marca de perfume poderia produzir.
Não bebia o chá que tinha na frente porque havia frases nas quais tomávamos um chá. As recordações perduravam mais do que as coisas do presente. O som produzido pela colher do chá era mais real do que os indicadores modernos de tempo e de lugar. Vislumbrava-se um enorme sorriso no meu rosto. Um sorriso que esperava entre os meus dentes e os meus lábios para se expandir pelo meu rosto...
Ao levantar os olhos da folha onde tinha escrito as frases, vi o amigo com quem me tinha cruzado pouco tempo antes no caminho. O meu sorriso tinha-se espalhado por entre os dentes e tinha-se perdido no meu interior.
_ Que te aconteceu? Não tinhas que ir para casa?_ perguntou-me com algum sarcasmo.
_ Afinal apetecia-me um chá.
O meu amigo pegou na cadeira num abrir e fechar de olhos, e sentou-se à minha frente.
_ A mim também me apetece tomar um chá._ disse-me.
Depois levantou-se de repente e começou a cheirar com o nariz como se fosse um touro.
_ Ouve, não terás posto perfume de mulher? Todo o teu corpo cheira a perfume.
Aquecendo de novo o meu sorriso:
_ Nãaao...
14/04/2022

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