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A mostrar mensagens de dezembro, 2020
  Istambul “ Istambul é como uma amante ferida, que foi atraiçoada...apesar de ainda não ter perdido o brilho nos seus olhos. “ E.A. O bater do seu coração, que durante os últimos meses se encontrava quimicamente controlado, voltava a acelerar. Perante a ideia da possibilidade, ténue que fosse, de viver um entardecer na “ costa “de Istambul, em Kadiköy seria, na costa de Caddebostan. O pôr-do-sol nas águas do Bósforo, a brisa cálida e encantatória dos fins de tarde, presenças marcantes em narrativas que lera, no imaginário de poetas que traduzira e plasmados em fotogramas de guiões cinematográficos de tempos passados ou imaginados. O “ Hüzün “, essa tristeza melancólica colectiva que a cidade respira desde tempos ancestrais. Os gatos de Istambul, passeando-se vagarosamente na orla e Gli, a gata imperatriz, guardiã da Grande Sabedoria. As gaivotas sobrevoando os “ ferries “ nas su...
  Na memória das pedras levemente afloradas pétalas rosas pérolas geladas espinhos protectores dos lugares as águas vão e vêm em longas caminhadas em luzes azuladas se retêm contêm o coração dos dias. Olhos de Água, 1986
  Os ímanes na porta do frigorífico, alguns, testemunho de viagens que não fiz, lembram-me o tempo em que, em quartos de hotel deixei ficar anéis, que em fantasias juvenis me prenderam, brevemente à vida.
  A vida é um processo solitário intercalado de momentos de solidão acompanhada. Quando deixamos de ser " só uma possibilidade “ e passamos ao instante em que nascemos, o acto mais solitário e virtuoso do ser humano, só o fim é certo. Tudo o resto pode ou não acontecer ou ter acontecido. Mas só um caminho de afastamento e de autoconhecimento permite alcançar o estado de revelação desse nosso lado esquerdo, que é a alma.
  Apontamento “ Na primavera vou viver contigo! “- foi isto que Jorge Listopad diz ter ouvido nos jardins da Gulbenkian, um dia destes, talvez. Mas esta não poderia ser a primeira frase desta história. Mas poderia ser assim: “ Não era Primavera quando fui viver contigo, mas sim Setembro, no Outono, no seu início.” Vai ser na primavera que te vou deixar. Viver contigo é agora muito difícil e denso. Por isso e talvez não só por isso, vou deixar-te na Primavera. A frescura dos dias novos e claros do mês de Abril será o momento para o quebrar de laços tão frágeis e tão profundos. A fragilidade dos sentimentos não tem nada a ver com a resistência de forças físicas como a de amarras de navios ou a da tensão dos fios do Norte. Deixei-te na Primavera.
" Senta-te para a cadeira saber que é uma cadeira ... Enquanto não tocares o copo com os lábios, o copo não saberá que é um copo ... " Cahit Sitki Taranci
  Estou nas memórias       -   Anisindayim Estou na fatia de uma maçã, ligeiramente mordida Estou no aroma da maçã Estou nas memórias – não sei de quem - Posso estar presente nas memórias, invisível nos sonhos Os significados aparecem nos sonhos E apresentam-se imprecisos E Não há memória anónima. Ou haverá? Edip Cansever tradução da versão em inglês
  Donelo do Douro Após a agonia das curvas do Marão, em que o meu estômago se colava à minha boca e o meu rosto pálido embranquecia, a chegada à aldeia, a casa dos meus avós, era vivida com um misto de alívio e felicidade. Os aromas da fruta fresca espalhada em tabuleiros por sobre os aparadores da sala de jantar, o pão de centeio e a broa de milho que nos esperavam na mesa da cozinha, ao pequeno-almoço. As escapadelas furtivas à “ Cortinha “em frente a casa, onde havia um poço, que não sabíamos nunca muito bem onde, devido às silvas e ervas altas que o escondiam. E todos os verões parecia ser um local diferente que perigosamente nos espreitava, nesses passeios exploratórios. À tarde, após a sesta ritual, descascávamos vagens de feijão seco, sentadas no chão do terraço. Separá-los por cores e matizes era para mim um divertimento adicional. Isto, enquanto esperávamos, ansiosamente, pela vinda da aguadeira. As idas à fonte com “ a...
  Há memórias que inventamos com o passar do tempo. Umas para apaziguar feridas ainda abertas, outras para aliviar os sulcos vincados na alma, outras ainda, para selar um compromisso com o que verdadeiramente lembramos do nosso passado. Em criança sofria de pesadelos recorrentes. Pesados, dolorosos. Encontrava-se encerrada numa enorme cápsula branca, pousada no leito do rio. No sonho, acordava e não podia libertar-se. Não havia porta nem janelas e se houvesse, de nada serviriam, pois sentia que não conseguiria alcançar a superfície. O que mais a assustava, era a sensação de que dentro do sonho, a sua respiração parecesse cadenciada e límpida. Quase como se se sentisse em casa e o seu lugar tivesse sido sempre esse. Talvez porque vivera, nessa época, junto ao rio, e à noite, com dificuldade em adormecer, (recorrência em toda a sua vida ), observava pela janela do quarto, as luzes das margens, reflectidas à superfície das águas. O rio era uma atracção e ao...
  Telegrama “ A vida deve ser...um pouco mais,... um pouco melhor...tem que ser. “ Viver não deve ser esta chatice, o ter que, o dever de, o escoar dos dias de trabalhos insípidos, as noites mal dormidas nas angústias dos dias seguintes, o tédio, a solidão dos homens entre a multidão, crónica dos dias e das noites sem descanso, imaginária memória  da vida, que será vivida.