A última estação Dez anos passados, Mariana reabre o gavetão da secretária, que, outrora, fora o local privilegiado de trabalho e reflexão. Sabe que lá dentro, guardadas em páginas soltas e pequenas agendas amarelecidas, estão também memórias de sentimentos há muito sufocados, mas nunca esquecidos. Pelas janelas da sala não entra ar nem a luz do dia. Dias, agora semelhantes em monotonia, uns após os outros, da angústia, do calendário. (…) “ Paraste de escrever, pois claro! Vivias da sua luz. Sem ele não vales nada! Olha bem para ti!”, dizia. “ Na sombra, não vales nada! Já não és nada! Não dizes nada? Não respondes? Pois é, não vales nada!” (…) Mariana pára de folhear e volta a fechar a gaveta, com um gesto enérgico. A custo, a madeira antiga, inchada, ferida, emperrada pelo tempo de clausura, obedece-lhe. Mariana sente-se presa, agarrada a um passado viciado em arrepios, calafrios e dor. Imagens e sons, aliterações, que no seu interior se ampliam e gritam, dia e...