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Mensagens

A mostrar mensagens de novembro, 2020
  Inventar o amor Adiar o terror da perda e da paixão Guardar o átomo apenas O momento sublime entre respirar e talvez parar de bater, coração de cristal.
  No chão da sala de estar, ao som de Vivaldi, Mozart e Tchaikovsky, aos sábados à noite As “ Mil e uma Noites “ lidas clandestinamente em volumes encadernados a vermelho e ouro, queimando-me as mãos, iluminando-me a alma...
As toalhas de linho que bordaste, quando o teu filho estava para nascer As porcelanas e os talheres de prata, de intermináveis convívios calorosos Tira tudo agora dos armários, onde guardaste fragmentos felizes de outra vida Esse futuro não vai voltar.
  Zamansız   -  Intemporal  por Engin Akyürek “ O tempo é o melhor autor. Escreve sempre o final perfeito. “ Limelight (1952 ) Tínhamo-nos conhecido há 1 hora e 13 minutos. Como posso saber? Nunca tinha vivido um momento em que tivesse estado presente sem pensar no tempo. Tinha necessidade de olhar o écran do meu telefone para poder digerir o que estava a sentir. Estaria a apaixonar-me? Ou o insólito de ter acabado de conhecer uma pessoa convidava-me a viajar? Sentia-me como se estivesse à beira de uma falésia de onde poderia cair com um único passo em falso. Uma substância química intacta chamada adrenalina controlava completamente o meu corpo. Uma outra alma que nunca tinha sentido antes possuía o meu coração e a minha voz. Eu tive a simples experiência de conhecer alguém num café da rua Bağdat. (1) Não havia coincidências significativas a n...
   " Anlatamiyorum "      -      " Não posso explicar " Se eu chorar,    ouvirás a minha voz nos meus poemas? Poderás tocar as minhas lágrimas com as tuas mãos? Antes de sentir esta dor eu não sabia que as canções eram tão belas e as palavras insuficientes. Sei que há um lugar onde tudo pode ser dito Sinto que estou perto, não posso explicar. Orhan Veli Kanik ( 1914 -1950 ) tradução da versão em francês
  Um dia saberás, esta solidão cinzenta que percorre tudo e todos e só ela permanece dentro e à volta e atravessa tudo o que respira e queima como ferida em fogo ( e não é como o amor ardente do poeta ) Um dia saberás, o amor é tão preciso.
  Biz - Nós Por Engin Akyürek Publicado na revista Kafasına Göre, nº 31, Março / Abril 2020 Tradução de Maria José Couto da versão em francês de enginakyurekfrance.fr copyright © Engin Akyürek Tínhamos as nossas próprias frases. Eram frases que não começavam por ”Tu” nem continuavam com “Eu “. Eram frases que eram “ Nós “. Agora o “ Nós “ faz-me mais falta do que o “ Tu “. Escrevi uma frase numa folha branca. Poderia ser a primeira frase de uma história, eu não sabia se seria capaz de escrever uma introdução melhor. Estas frases eram o resultado de longos olhares entre o papel branco e eu. A distância entre a cadeira e a mesa e a minha postura incorrecta , provocaram-me dores nas costas. De facto, o efeito desta cadeira de madeira no meu corpo inspirou-me frases sobre uma relação que acabou. Eu sabia que não podia começar a minha história com esse tipo de frases antes de me poder sentar a uma boa mesa, numa poltrona co...
  O tempo das madrugadas límpidas da brisa matinal na marginal O tempo das noites claras O tempo do silêncio das palavras cristalinas. Vila Real, 12 de Setembro de 2018
  Isto é talvez melhor do que soletrar letras desalinhadas e desatentas. Ou então só de pensar isso é já cansaço o que sente o meu coração. Saber ler o que sentimos é ser revelador de almas. Dentro de nós há sempre alguma coisa de simples e natural. Por muito e mais que se fale de filosofia e ciências, estaremos sempre dispostos a desvendar um sorriso natural e antigo e saberemos sempre chegar ao fim. Meus pensamentos e mágoas e os teus e os dos outros. Será que penso nisso ou só sinto o meu olhar sobre as coisas e os outros. Pergunto só isto, assim tão simples e naturalmente. Não haverá fim para o meu sentir e o meu pensar. Tão claro e natural como a terra que piso e o ar que respiro é este ser-se natural e simples. Olhamos a Terra à nossa volta e vemo-nos a nós, presentes, sempre. 23 de Novembro 1988
  A última estação Dez anos passados, Mariana reabre o gavetão da secretária, que, outrora, fora o local privilegiado de trabalho e reflexão. Sabe que lá dentro, guardadas em páginas soltas e pequenas agendas amarelecidas, estão também memórias de sentimentos há muito sufocados, mas nunca esquecidos. Pelas janelas da sala não entra ar nem a luz do dia. Dias, agora semelhantes em monotonia, uns após os outros, da angústia, do calendário. (…) “ Paraste de escrever, pois claro! Vivias da sua luz. Sem ele não vales nada! Olha bem para ti!”, dizia. “ Na sombra, não vales nada! Já não és nada! Não dizes nada? Não respondes? Pois é, não vales nada!” (…) Mariana pára de folhear e volta a fechar a gaveta, com um gesto enérgico. A custo, a madeira antiga, inchada, ferida, emperrada pelo tempo de clausura, obedece-lhe. Mariana sente-se presa, agarrada a um passado viciado em arrepios, calafrios e dor. Imagens e sons, aliterações, que no seu interior se ampliam e gritam, dia e...
  “ Karşılaşmalar “ - “ Encontros “ Autor - Engin Akyürek publicado na revista Kafasına Göre, edição nº 35, Nov / Dez 2020 traduzido do turco por Legión Akyürek Perú e Engin Akyürek Uruguay traduzido do espanhol por Maria José Couto                                                         copyright © Engin Akyürek De cada vez que um ponto de interrogação aparecia na minha cabeça, escapavam pelas fendas do meu coração até à minha língua frases que não conseguia decifrar, ficava em silêncio, e os meus ouvidos tentavam escutar a dor. Então imediatamente saía para a rua para tentar encontrar respostas às minhas perguntas entre a multidão. As vozes ...
  Amar é talvez saber o lugar onde teu coração guarda as palavras por dizer e eu decoro o que sentes quando o dia desce e as águas claras são o leito que apetece e ardem no calor do corpo do amor. Maria André, Amor Amar, 1989 Colecção Leopardo Azul /4
          Iki Kalp      -     Dois Corações O caminho mais curto entre dois corações, dois braços estendidos um para o outro, a ponta dos dedos tocando-se Estou a correr em direcção às escadas A espera dá corpo ao tempo Cheguei cedo demais e não te encontro como se fosse apenas um ensaio Os pássaros reúnem-se vão migrar Se eu te tivesse amado só por isso Cemal Süreye traduzido da versão inglesa Outubro 2020
  E se Constantinopla tivesse sido só uma miragem mergulhando nas águas do Bósforo, incendiadas por miríades de luzes estelares Das torres de marfim dos minaretes, ecoa a voz do muezim, no chamamento às orações do dia E se em Santa Sofia a sabedoria se revelasse...
  Turuncu kedi - o gato cor-de-laranja Na minha infância os gatos não frequentavam a casa. Permaneciam no quintal ou no terraço. Tinham permissão para entrar na cozinha e mais tarde, na minha adolescência, a Abril, vinda do terraço, era livre de circular entre a cozinha e a “ sala de estudo “, onde fazíamos os deveres e onde passávamos a maior parte do tempo livre. Passava horas a ler, sentada no sofá e a Abril ao meu colo, ronronava sestas intermináveis. Como gata siamesa que era, espírito livre e pouco dada a manifestações sentimentais, como oriental que era, a nossa relação era mais de silêncios do que verbal. Quando foi tomada a decisão de a entregar a uma família que a pudesse cuidar durante todo o ano, incluindo as “ férias grandes “, quando nos ausentávamos, por vezes por períodos de um mês, sem que a pudéssemos levar connosco, e se encarregasse de “encaminhar “ as suas crias, que nasciam invariavelmente todos os anos, a minha alma gelou. Tomei a de...
  Praia deserta vento frio de fim de tarde de Outono... As ondas rebentam no areal deserto O sol vai descendo em direcção ao poente deserto do nosso descontentamento. Leça, Cabo do Mundo, 10 de Novembro 2020
 Breve A vida é breve, os pássaros voam. Cemal Süreya

Mergulha nas águas do esquecimento

 Mergulha nas águas do esquecimento como se fosse natural não lembrar as marcas o instante é agora o sono no lago as margens recuam ao nível do sossego perfumado o ar o leito macio apetece pousar. Mergulha e nada sabe das cidades do futuro. Maria André, Olhos de Água, 1986